Jorge criou o negócio que não encontrou como cliente: produzir barcos de luxo à medida

De CEO a empresário naval. Jorge Martins, 43 anos, estava à frente de uma multinacional quando resolveu mudar de vida. Não tinha um plano B, mas descobriu-o. Transformou um hobby em negócio. Vai fazer séries limitadas de barcos de luxo, vendê-los online, e criar serviços à medida do cliente. O primeiro ROM 28 só se mostra em outubro – mas já tem encomendas desde o verão.

Texto de Marina Almeida | Fotografias de Gerardo Santos/Global Imagens

Não lhe falem em barcos brancos. Jorge Martins detesta barcos brancos. Quando ele e a mulher foram comprar um barco, com determinados pedidos (entre os quais não ser branco), enfrentaram demasiados entraves. «A certa altura até questionei se me queriam mesmo vender um barco. Tive muita dificuldade com a personalização. O barco é preto. E, dentro do género, é um barco muito bonito.»

Este episódio passou-se uns tempos antes de Jorge decidir mudar de vida. Estava há 23 anos na mesma empresa de consultoria e tecnologias de informação, nos últimos quatro anos como CEO. Sempre se dedicou «de corpo e alma e apresentava excelentes resultados» até que, um dia, sentiu que não era aquilo que queria continuar a fazer. «Não me sentia feliz e tinha de mudar. Quando anunciei a saída, não tinha um plano B», conta.

Afinal, a nova vida de Jorge foi criar o negócio que não encontrou enquanto cliente. Ainda os amigos se questionavam se o CEO demissionário tinha enlouquecido, já ele voava em low cost pela Europa a visitar estaleiros navais. Abriam-lhe as portas e ele ia ver como se fazia, falava com pessoas. «Um dia, num estaleiro na Holanda o dono disse-me que quem compra um barco tem direito a ter uma coisa única». Foi o clique. Depois veio muito trabalho. Havia que começar um negócio em Portugal, sem experiência, sem equipa, sem instalações, e com uma indústria naval moribunda. Mas até nisso, Jorge Martins transformou as fraquezas em forças.

«Qual é a vantagem de uma pessoa vir de fora? É que eu não trago nenhum preconceito nem nada pré definido quanto à forma de fazer, e essa é a primeira grande vantagem. É um setor em que existe muito preconceito e a forma de fazer evoluiu muito pouco. Essa é uma das razões que eu encontro para o insucesso das empresas portuguesas neste setor – muito pouca inovação, muito pouco investimento em marketing, ter pouca aptidão para rechear um barco com equipamentos de luxo». O que a ROM – significa Rebuild Ocean Motivation – vai fazer é isso mesmo: barcos de design exclusivo em edições limitadas.

Apresentou um protótipo na ARCO Lisboa, e está a trabalhar com uma equipa de seis pessoas, com estaleiro em Aveiro. Têm entre 25 e 68 anos, alguns com larga experiência no ramo. O empresário naval escolheu o designer do barco no google: fez uma «pesquisa de top designers de barcos do mundo» e chegou aos da Barracuda. Mandou-lhes um mail e contou a sua história. Depois foi a Madrid (onde estão sedeados) «com expectativa zero» mas, afinal, ouviu dizer que o projeto era inovador e o barco foi mesmo desenhado por eles. Este mês deverá apresentar o primeiro ROM28, de nove metros (28 pés). Uma edição limitada de 20 unidades, numeradas e personalizadas com acabamentos de qualidade que vai custar 140 mil euros (mais IVA). Ainda não tinha barco e já tinha encomendas – o que lhe deu (ainda mais) alento. E já sabe que depois avançará para nova edição limitada, de um barco maior (36 ou 40 pés).

A ROMboats não terá loja física, mas um site onde o cliente pode escolher todos os acabamentos com um configurador 3D (disponível em breve). Outra das particularidades do negócio, é que a entrega dos barcos e a assistência técnica será feita pelos próprios, dispensando intermediários. A empresa oferece ainda, no primeiro ano, um serviço de entrega e recolha do barco em doca seca, em Setúbal e Aveiro. «A nossa preocupação é com cliente e com a experiência, não tanto a transação», acentua. Para além dos barcos novos, a ROM terá um serviço de Refit para usados, com a avaliação feita por orçamento. «Queremos agarrar em embarcações que estão mal estimadas, mal amadas pelos proprietários, aqueles que compraram barcos de 20 metros e já não lhes pegam. Fazemos uma reconstrução e damos uma segunda vida a esses barcos e uma motivação ao proprietário.»

E se lhe pedirem um barco branco? Jorge Martins solta um sorriso. «Detesto barcos brancos mas se me pedirem um barco branco vou garantir que se faz um barco branco bonito. E mais uma vez, isso é um preconceito que existia no setor. Porque é que os barcos eram brancos? Porque é muito mais barato. Depois eram tintas que há 30 anos absorviam muito menos calor mas hoje em dia há tintas metalizadas, azuis, pretos, que não absorvem calor nenhum. Agora são mais caras e com outra durabilidade…»