O português que inventou o papel higiénico preto – e revolucionou a indústria

Paulo Pereira da Silva é o responsável pelo sucesso da marca Renova. E conta-nos porque é um eterno curioso.

Foi a assistir a um espetáculo do Cirque du Soleil em que um bailarino se envolvia em acrobacias em longos panos negros que Paulo Pereira da Silva teve a ideia de criar o papel higiénico preto. Toque de génio ou puro exercício de tentativa e erro que marcou para sempre o engenheiro físico que gere a Renova. A conversa que tivemos não foi sobre negócios mas sim sobre a infinita curiosidade que tem sobre o mundo que observa.

Entrevista de Filipe Gil
Fotografias de Diana Quintela/Global Imagens

Algures em Torres Novas, por caminhos banais, está a fábrica da Renova. No local a «dureza» industrial vive de mãos dadas com alguma arquitetura contemporânea. Percebe-se que está tudo cuidadosamente pensado para ser subtil, mas marcar o espaço. A escada que nos leva ao escritório é antecedida por uma peça de arte que a muitos pode passar despercebida criada por Paulo Pereira da Silva. Lá dentro, no seu espaço de trabalho, damos de caras com mais obras de arte, maquetas, livros, fotografias e revistas contemporâneas. Contudo o que impera é um grande quadro negro de ardósia no qual Paulo se diverte a resolver fórmulas matemáticas. Foi junto ao quadro que se seguiu uma conversa sobre curiosidade e autenticidade.

Como é que se transforma um produto banal como o papel higiénico em algo com requinte, estilo e, de certa forma, em luxo?

Não gosto de definir definições. Não é isso que importa. Mas é necessário falar de marcas para explicar o que aconteceu. Tenho tentado desenvolver uma marca e não apenas um produto industrial. Uma marca é uma ligação emocional entre qualquer coisa e os cidadãos. No futebol, por exemplo, os dirigentes, os jogadores e os técnicos mudam, mas há uma ligação emocional com o clube, que é uma marca, que perdura. A reputação do clube vai ficando, apesar de o conteúdo por vezes ser nulo, ou quase nulo. Quando começámos a tentar internacionalizar a Renova havia um produto (papel higiénico), que no limite era um não-produto por ser um assunto quase tabu, sem nenhuma relação emocional. Foi assim necessário inovar e fazer coisas diferentes do que já existiam, mas tiveram, e têm, de ser autênticas e coerentes. E no meio disso tudo surgiu o papel higiénico preto. Foi a procura de um caminho diferente.

A Renova é uma marca que foi criada no início do século XIX, tendo a empresa Renova que hoje conhecemos começado em 1939. Há uma forte ligação ao local onde estamos (Torres Novas) e que tem que ver com o facto de esta indústria necessitar de água e temos uma nascente dentro da fábrica – o que é algo quase único. Mas não é só isso, é também respeitar as gerações de pessoas que fizeram e fazem esta marca, para mim, é muito importante a nossa autenticidade – que é feita por pessoas. Como com isto tudo despertamos curiosidade e somos alvo da curiosidade de gente de todo o mundo, temos visitantes que vêm da China ao Brasil.

«O que tenho de fazer é catalisar muitas ideias novas todos os dias para experimentarmos muita coisa. Deixar, por exemplo, que as pessoas possam propor coisas novas e testar.»

Uma empresa com mais de duzentos anos tenta renovar-se?

Sim, e isso está no nosso nome. Mas há duas coisas a reter: ter orgulho do património de tudo o que fizemos e das pessoas que cá trabalharam. Por outro lado, é ter a humildade de perceber que o mundo está a mudar e que nada está garantido. Há, a todos os níveis, uma necessidade de renovação constante. Se calhar está no nosso ADN, aliás quando começámos a fazer guardanapos e papel higiénico, no início dos anos 1960, foi uma inovação brutal para uma fábrica de papel. É algo que está na nossa cultura.

Vive em busca de outra ideia, como a que teve do papel higiénico preto?

Respondo-lhe de forma diferente. Venho das ciências puras, como sabe, e se calhar um físico ou matemático pode viver uma vida inteira à procura de fórmula X. Não é o nosso papel aqui. O que tenho de fazer é catalisar muitas ideias novas todos os dias para experimentarmos muita coisa. Deixar, por exemplo, que as pessoas possam propor coisas novas e testar. A primeira censura está nas nossas cabeças e tentamos lutar contra isso. Não me preocupa nada em ser o tal produto, porque antes de ele ser ninguém sabe o que é. Como engenheiro até posso fazer um produto fantástico mas os cidadãos não darem valor, ou vice-versa. Tem que ver muito mais com a cultura em gerar, conceitos novos e experimentar muitas coisas do que andar à procura da «coisa». E da maneira como vivemos atualmente e no mundo em que vivemos nada é definitivo. Temos de andar à procura de coisas com toda a nossa inteligência e inocência.

«Havia um produto, que no limite era um não-produto por ser um assunto quase tabu, sem nenhuma relação emocional.»

Potencia a cultura criativa junto das pessoas que o rodeiam?

Acho muito importante começarmos nos conceitos e depois então passarmos para a engenharia e para a construção dos produtos. É muito importante que os conceitos venham das nossas pessoas mas também podem surgir daqueles que nos seguem e falam sobre nós. Deixe-me dar um exemplo mais pessoal. Em adolescente vivi prisioneiro da geografia de onde vivi, Abrantes, e, como na altura viajava-se pouco, a minha capacidade de conhecimento do mundo era a estudar, ler na observação dos outros. Aprendi muito a ler os clássicos. Mas neste momento a minha infinita curiosidade é saber como os jovens entre os 15 e os vinte a tal anos comunicam entre si nas redes sociais. Saber aquilo que os faz mover. E saber, tanto quanto possível, qual o mundo que se está a formar.

Faz curadoria daquilo que vê redes sociais?

Sim, um pouco. Não quero fazer nenhuma tese sobre o assunto, mas acho que comunicamos cada vez mais com as imagens e cada vez menos com a escrita. Cada vez oiço mais livros em vez de os ler. Gosto muito da voz e da imagem. Costumo dizer que a escrita vai ficar como a pintura a óleo. A certa altura, a pintura a óleo era usada como fotografia, mas depois virou arte. E acho que vai acontecer o mesmo com a escrita. Gosto muito da escrita bem escrita, mas já não precisamos dela para transmitir informação no tempo e no espaço. Se calhar vai acabar mesmo e iremos passar todos a ver vídeos, imagens ou a ouvir podcasts. Eu, por exemplo, todos os dias de manhã oiço no carro o resumo do The New York Times em podcast…

Mas o que vemos nas redes sociais não é uma verdade encenada?

É encenada e não vejo qualquer problema nisso. Preocupa-me mais que os mais novos não liguem àquilo que não são as suas redes. Tudo o que está fora disso não existe para eles. Mas o que procuro é aquilo que me é mais estranho, não tenho o mínimo interesse nas redes das pessoas da minha idade. Claro que às vezes há coisas estranhas como as fake news, mas também há pessoas na área científica com as quais aprendo imenso. Do ponto de vista pessoal, há uma questão geracional que é extremamente interessante perceber: como os jovens reagem a certas questões morais. É interessantíssimo.

«A minha infinita curiosidade é saber como os jovens entre os 15 e vinte e tal anos comunicam entre si nas redes sociais.»

Voltando a falar da autenticidade. Portugal hoje está na moda como nunca? Foi necessário ter estrangeiros a falar de nós?

O mundo mudou muito e tem mudado muito, e não é só em Portugal. Apesar de o país estar atualmente em destaque em todo o lado, não acho que seja tanto pela forma como os estrangeiros nos veem mas mas sim como nos vemos a nós próprios. De repente, estamos contentes com o que somos e com a nossa autenticidade. E essa é uma mudança radical.

Quando era miúdo ia muitas vezes à Nazaré e, se calhar, vi várias vezes a tal onda de que hoje se fala tanto. Mas nunca ninguém me chamou a atenção que era uma coisa fantástica. E a onda esteve lá sempre. Dá que pensar. Dou outro exemplo: estive em Taipé há muito pouco tempo e numa estação de caminhos-de-ferro, num quiosque, o que se vendia ao pequeno-almoço era croissants e pastéis de nata. O que é notável. Contudo, falta-nos ainda criar uma marca global, agregada ao nosso estilo de vida, como tão bem fazem os franceses e os italianos.

Portugal é uma moda que vai passar?

As redes sociais ajudaram a que, por exemplo, aqui na província onde estamos sediados existam pessoas jovens que têm uma vida saudável e urbana como se estivessem em Nova Iorque, claro que sem os meios de lá. Mas a forma de viver veio para ficar. Penso que o bem-estar está mais ligado aos pequenos prazeres do dia-a-dia, mais ligado ao corpo e à saúde e menos ligado a possuir coisas. Vejo esse lifestyle em pessoas que noutras gerações era totalmente impossível. Não vejo tanto essa mudança por causa do turismo, mas pela mudança que estamos a fazer cá dentro. E atenção, não tenho complexos, os portugueses são bons em certas coisas e maus noutras. Mas gosto da nossa autenticidade.

«A primeira censura está nas nossas cabeças, tentamos lutar contra isso.»

E, atualmente, como olha para o luxo?

No passado havia uma sociedade muito mais estereotipada da ideia de luxo, que tinha que ver com marcas como ouro, brilhantes, etc. Hoje o luxo é poder escolher. Ter escolhas, porque infelizmente a maioria das pessoas não têm escolha. E quando digo ter escolha é, por exemplo, a escolha de não ter.

Mas que tipo de escolhas?

Dou o exemplo de uma amiga que vive no centro de Paris e que cultiva os legumes no seu apartamento, isso para mim é o cúmulo do luxo. Ou, por exemplo, se alguém tem um quadro do Basquiat, um pintor de que gosto muito, em casa, sim isso é um luxo! Ou ainda alguém poder escolher ir beber uma cerveja ao JNcQUOI em Lisboa. O luxo é a liberdade de poder fazer o que se quer. Mas não gosto nada que seja um estilo de vida estereotipado, que se tenha de ir a certo local passar férias ou beber só o vinho de tal marca ou as mulheres terem de usar a carta e a joia das marcas X ou Y. Mas à escolha gosto de juntar a palavra qualidade. Fazer as coisas bem feitas, com cuidado e detalhe. E isso está muito ligado às mãos. Ou de um chef ou de um artesão. Algo que é muito humano.