Os vinhos raros e exclusivos da Garrafeira Nacional

É francês, tem 25 anos e custa 23.950 euros. «Domaine de la Romanée Conti», da região da Borgonha, em França, é um dos vinhos mais caros da Garrafeira Nacional, em Lisboa. Fundada em 1927 por Serafim Vaz Mendes, a empresa foi passando de geração em geração e pertence atualmente ao neto, Jaime Vaz, que nos guiou pelo espólio.

Com mais de 90 anos de experiência comercial na região de Lisboa, a Garrafeira Nacional é um importante abastecedor e comerciante de vinhos. Para Jaime, esta aventura começou bem cedo. «Era muito pequenino, frequentava a escola primária aqui na Praça da Figueira, a 50 metros da loja, por isso passava aqui a vida. O meu pai trazia-me sempre. Aos 7/8 anos já atendia ao balcão com alguma facilidade. Depois, estudei até aos 16 anos e vim para aqui definitivamente», recorda enquanto nos mostra o Museu da garrafeira.

O espaço sempre existiu, primeiro como armazém e desde 1991 como Museu. Ali encontramos cerca de 1.000 garrafas raras e exclusivas. «São produtos mais especiais, como é o caso dos vinhos do Porto e da Madeira, Moscatel, vinhos com mais de 70, 80 ou 100 anos. São garrafas muito antigas e únicas, algumas delas feitas à mão, com as suas imperfeições. E temos também outros vinhos de vários países, como a França, Itália, ou Espanha», explica.

No caso do «Domaine de la Romanée Conti» é a raridade que torna esta produção especial. O mais caro à venda na Garrafeira Nacional data de 2015. O conjunto de duas garrafas custa 59.900 euros. «Este vinho pertence a uma das quintas mais emblemáticas de França, da zona da Borgonha. São vinhas muito pequenas, a produção é mínima comparativamente com a procura dos clientes. A vinha é tratada de uma forma muito especial, há uma forte ideologia que respeita muito a terra, e que confere um cuidado e elegância ao vinho que torna a vinho muito famoso. Eles usam aquecedores nas vinhas durante as geadas. Tratam o vinho como se fosse um bebé», explica Julie Perrinot, gerente de loja.

«São produtos mais especiais, como é o caso dos vinhos do Porto e da Madeira, Moscatel, vinhos com mais de 70, 80 ou 100 anos.»

O mesmo se passa com o «Domaine de la Romanée Conti» de 1993. Nesse ano, foram produzidas apenas 3.600 garrafas deste vinho e a Garrafeira Nacional tem atualmente a 328.ª garrafa à venda. A vinha tem 1,814 hectares, e localiza-se junto à aldeia de Vosne-Romanée, na Côte de Nuits. No total, são 22.500 videiras, todas de Pinot Noir. O vinhedo original foi plantado no século XV pelos monges de Saint-Vivant. Mesmo as colheitas mais recentes superam os 10 mil euros. Em 2014, num leilão em Hong Kong, a Sotheby’s vendeu uma coleção de 114 garrafas de Romanée-Conti (seis garrafas por colheita desde 1992 até 2010) por 1,62 milhões de dólares.

Mas ali, no Museu da Garrafeira Nacional, o que não faltam são vinhos com história. Como o Apothéose, um vinho da Madeira com 301 anos, que foi vendido recentemente por cerca de 16 mil euros. Por 12.750 euros está ainda à venda uma das ultimas aquisições de Jaime num leilão privado organizado pela adega José Maria da Fonseca. «É um vinho bastardinho com mais de 80 anos muito especial».

Ali ao lado encontramos também o vinho mais antigo de momento em exposição. É de 1780 e é um Boal, um vinho da Madeira da H. M. Borges, empresa gerida pela quarta geração da família. Custa 8.900 euros e é uma garrafa única.

O vinho mais antigo de momento em exposição é de 1780 e é um Boal, um vinho da Madeira da H. M. Borges.

O dia-a-dia de Jaime é além de gerir o espaço, percorrer o país em busca de leilões e garrafeiras, no sentido de encontrar os vinhos mais especiais. E cada vez que um deles sai do seu espólio garante: «Dói-me o coração.» E talvez por isso são muitos os clientes que depois da compra, voltam ao contacto para dar um feedback do vinho que levaram.

A Garrafeira Nacional conta já com três lojas físicas e uma loja online. São mais de 9.000 referências e cerca de 260 mil garrafas em stock. Em dezembro, venderam 5.000 a 6.000 garrafas por dia. «Para além dos portugueses que continuam a ser a maioria dos nossos clientes, recebemos muitos franceses, alemães, brasileiros, espanhóis, americanos, russos», enumera Jaime. Julie acrescenta: «Há muitos clientes de países que não têm uma tradição vinícola. Nunca viram garrafas tão antigas nas suas garrafeiras.»