Os estrangeiros ricos que escolheram Portugal para viver

Os incentivos fiscais, a cultura e a segurança foram o que mais pesou na decisão de mudança. Antes a família morava em Aix-en-Provence e todas as semanas Jean Robert, de 65 anos, fazia 750 quilómetros para ir trabalhar para Paris.

O Alentejo é o novo eldorado dos estrangeiros com poder de compra que procuram o sul. Muitos francófonos, mas também ingleses e americanos andam com o radar ligado para se instalar longe do mundo. A história de Jean-Robert, de Richard e do lusodescendente César de Brito.

Texto de Marina Almeida | Fotografia Filipa Bernardino/Global Imagens

Durante 40 anos, Jean-Robert Mouillet esteve à frente de empresas. Fez fortuna com uma escola de maquilhagem altamente especializada em Paris, com ensino privado, entre outros negócios. Quando decidiu reformar-se, percebeu que o imposto sobre as fortunas do governo francês lhe levava boa parte do rendimento: “Foi problemático para mim porque os meus impostos eram superiores ao meu rendimento. O facto de o imposto de solidariedade sobre a fortuna (ISF) não existir no vosso país é uma grande vantagem.”

Fez contas, “estudos de mercado”, como sempre. Em cima da mesa estava Portugal, Estados Unidos e a ilha Maurícia. Escolheu Portugal – “decidimos que preferíamos uma cultura mais católica para nos implantarmos”. Demorou dois anos a encontrar a casa com piscina, jardim e segurança privada onde nos recebe no Estoril. Na garagem veem-se dois carros de gama alta, uma das suas paixões. Por isso, comprou um parque de estacionamento de 300 lugares em Carcavelos, onde planeia criar um serviço de conciergerie para clássicos e carros de luxo. “Sou reformado em França, ativo em Portugal”, diz.

Quando decidiram instalar-se em Portugal, os Mouillet nunca tinham visitado o país nem tinham amigos portugueses – o mais próximo disso foram os anos que viveram em Champigny-sur-Marne, onde existe uma forte comunidade lusófona.

Jean-Robert Mouillet, 65 anos, vive com a mulher Anne e a filha, atualmente com 15 anos (aluna do Liceu Francês, em Lisboa), há um par de anos em Portugal. Os incentivos fiscais, a cultura e a segurança foram o que mais pesou na decisão de mudança. Antes, a família morava em Aix-en-Provence e todas as semanas Jean-Robert fazia 750 quilómetros para ir trabalhar na capital francesa. “Durante a semana ficava em Paris e voltava para o fim de semana de dois ou três dias com a família.”

Quando decidiram instalar-se em Portugal, os Mouillet nunca tinham visitado o país nem tinham amigos portugueses – o mais próximo disso foram os anos que viveram em Champigny-sur-Marne, onde existe uma forte comunidade lusófona. Começaram a vir por temporadas, procurar casa. “Fui várias vezes ao salon immobilier de Lisboa em Paris, vim uma semana a dez dias por mês para procurar esta casa. Demorei dois anos a encontrá-la. Procurámos na Quinta da Marinha, a minha mulher preferia o Estoril porque encontrou amigos que vivem aqui. Mas finalmente foi esta casa que nos agradou e instalámo-nos aqui”, conta.

Quando se mudaram para o Estoril, Jean-Robert já tinha comprado o parque de estacionamento. Depois, investiu no restaurante Albricoque, cozinha algarvia do chef Bertílio Gomes, em Santa Apolónia (é um dos três sócios), e em imobiliário no Seixal. Não deverá ficar por aqui, mas só gosta de falar dos projetos depois de se concretizarem. “Faço sempre projetos ligados a coisas que me interessem.”

O investidor francês é um dos 19 771 cidadãos franceses residentes em Portugal. Os dados do Relatório de Fronteiras, Asilo e Imigração (RIFA) do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) relativo a 2018 mostram uma tendência crescente de nacionais de França para se instalarem em Portugal. Foi a segunda nacionalidade europeia que mais cresceu naquele ano, com um acréscimo de 29,1%, e são a segunda nacionalidade mais implantada no país a seguir aos britânicos.

César de Brito conhece bem esta realidade. Português de terceira geração nascido e criado em França, fez carreira na banca e nos seguros, até que em 2014 viu uma oportunidade de negócio em Lisboa e mudou-se com a mulher e os três filhos. Fundou a DeBrito, imobiliária especializada em investimentos de gama alta. Estes cinco anos no mercado permitem-lhe saber imensas coisas sobre os estrangeiros que se instalam em Portugal. O seu principal mercado é francófono, ainda que trabalhe também com britânicos e americanos. Conta que “no início” os franceses procuravam o país devido ao estatuto de residente não habitual, que lhes concede benefícios fiscais. Na realidade, primeiro instalavam-se e só depois descobriam o país, tal como aconteceu com Jean-Robert .”Vinham pelas vantagens fiscais. Depois de se instalarem é que descobriram o custo de vida, a qualidade”, explica César de Brito.

A partir de 2016, o cenário mudou e foi a segurança que falou mais alto: começaram a chegar famílias inteiras. “Quando França teve a vaga de atentados, tivemos clientes que pegaram na família toda e mudaram-se para Portugal.” Isto levou a que o perfil dos investidores mudasse, sendo constituído por jovens na casa dos 40/50 anos. Também os valores de transação mudaram, porque o foco passam a ser tipologias mais altas, T3 e T4: se antes os valores de compra de casa na região de Lisboa se situavam entre os 400 e os 600 mil euros, depois passaram a estar num intervalo entre os 900 mil e os 1,5 milhões de euros. As zonas mais procuradas são Campo de Ourique, Lapa, Príncipe Real, o chamado “triângulo de ouro”, na vizinhança do Liceu Francês – que, refere César de Brito, tem atualmente 250 crianças em lista de espera.

As quintas no Alentejo são atualmente muito procuradas não só por franceses abastados como também por ingleses e americanos. “Estamos a desenvolver esta carteira de produto. Há clientes que têm casas noutros países mas querem ter uma propriedade no Alentejo para passar as férias e os fins de semana”, revela. E não estamos a falar da Comporta, que atrai outro tipo de clientes, mais cosmopolitas. “O cliente que procura o Alentejo procura a privacidade, a autenticidade. Quer uma casa no meio do nada”, diz, enumerando as zonas de Évora ou Aljustrel como exemplo.

A DeBrito tem uma parceria com uma agência francesa que vende castelos, a Patrice Besse, mas “o cliente habitual desse produto já não considera investir em França”. No entanto, César de Brito diz que é importante os proprietários portugueses perceberem que se compra em França um castelo por 500 mil euros, “porque há muito património”, referindo que há gente a pedir valores muito inflacionados pelas casas em Portugal.

Diz também que tem clientes que começaram por comprar casa em Lisboa e já têm segunda casa no Alentejo. Opções mais a norte, como o Douro, não se colocam para este mercado, porque estão longe do aeroporto. Já o Algarve também cativa investimento. Jean-Robert não sente falta de nada em particular, apesar de ser a primeira vez que mora fora do seu país. “Viajei muito, a cultura estrangeira para mim é natural, falo francês, um pouco de espanhol, desolé, não falo português, mas percebo.”

Na alimentação aponta duas questões: “Não encontro aqui boa carne, isso falta-me, e não é só uma questão do corte. E põem muito sal e muito açúcar na comida. Mas eu sei cozinhar, não fico refém. Compramos comida e fazemos à nossa maneira.”

Já Richard (nome fictício) vai mudar completamente de vida. Acede a contar a sua experiência, mas reserva a identidade. Este inglês tem 49 anos e prepara-se para se instalar em Portugal, algures “entre o Alentejo e o Algarve”. Trabalhou em multinacionais no setor da finança e dos seguros e agora quer “começar a viver”. Ainda tem casa em Londres e vai passar temporadas por cá. Quer conhecer o país mas não tem pressa. “Criei condições para a partir de agora ter todo o tempo do mundo”, diz sorrindo.

Escolheu Portugal porque é um país relativamente pequeno e variado, com mar e bom clima. Apaixonou-se pela quinta que comprou, vai arrumar o fato e as gravatas e calçar chinelos. Talvez pense num negócio, mais à frente. “Algo com plantas, gosto muito de botânica.”