A incrível história do Barão suíço que está a fazer vinhos em Colares

Nicholas Von Bruemmer estabeleceu-se há quase dois anos em Colares, deixou uma carreira na alta finança na Suíça, para seguir os passos do avô, o Barão Bodo Von Bruemmer, em Portugal. A partir de Colares faz vinhos rosados para competir com os melhores do mundo.

Texto de Carla Macedo | Fotografias de Gerardo Santos/Global Imagens

«Bebo 200 a 300 garrafas de vinho rosado por ano, sou um fanático de vinho rosado» diz Nicholas Von Bruemmer. O senhor do Casal de Santa Maria explica-se melhor logo a seguir: «compro essas garrafas para beber com amigos faz já 20 anos.»

Nicholas pertence à aristocracia europeia mas não utiliza o título: «os tempos em que era mais eficaz fazer uma reserva de hotel como barão acabaram.” Prefere ensinar os dois filhos que serem honestos e gentlemens são coisas que têm de ter sempre presentes.

«Tanto faz que se seja barão ou não. O importante é poder ter a mesma relação com um pedreiro e com um conde, esse é o segredo.»

Nicholas Von Bruemmer está no Casal de Santa Maria, há dois anos. «Tínhamos casa em Madrid e em Málaga. A minha segunda residência era em Espanha e por isso vinha sempre a Portugal.» Este sempre refere-se às férias que desde criança gozava no País, visitando do avô que tinha escolhido, em 1960, precisamente esta encosta da Serra de Sintra, com vista sobre o Atlântico para viver. «Para dizer a verdade, não gostava nada de Portugal. Era muito fado. O meu avô dizia-me sempre: um dia Portugal vai ser o melhor país do mundo para viver. E tinha razão.»

E a Suíça? Nicholas Von Bruemmer trabalhava desde os 44 anos em Zurique, em asset management, o que quer dizer gestão de riqueza e património. Antes disso, tinha sido self employed no mundo das telecomunicações e trabalhado para a família Swarosvky. «Sempre estive mais ou menos no meio-ambiente das empresas familiares, da private equity [compra de participações em empresas privadas] e no mundo das finanças.» Os estudos, primeiro em Zurique e depois em Londres, tinham-no encaminhado para esse mundo que gera milhões.

Esse dia chega em novembro de 2016 e Nicholas Von Bruemmer toma as rédeas da casa de família. «A mudança é que antes eu trabalhava 10 horas por dia no escritório, agora estou 10 horas no campo. O que é melhor? Creio que o campo.»

«Era uma gaiola dourada. Tudo era muito bonito, com muito dinheiro, mas não havia emoções. Falava com a minha mulher, que é espanhola, que não queria viver para sempre na Suíça porque… a minha alma morria.» Mais ou menos por essa altura o avô, Bodo Von Bruemmer, completa 104 anos.

Este homem que começara a plantar vinha no Casal Santa Maria aos 95 anos combina com o neto que «quando ele morresse, íamos continuar com a ideia dele.» Esse dia chega em novembro de 2016 e Nicholas Von Bruemmer toma as rédeas da casa de família. «A mudança é que antes eu trabalhava 10 horas por dia no escritório, agora estou 10 horas no campo. O que é melhor? Creio que o campo.»

Nicholas Von Bruemmer sente-se feliz e diz ter encontrado «o equilíbrio de fazer coisas boas: eu adoro beber vinho e ao mesmo tempo não preciso de muito luxo. Gosto muito de ter convidados, o turismo dá-me prazer.» No último ano, o Casal de Santa Maria aumentou em 300 por cento as receitas do enoturismo conseguindo, apesar deste crescimento, manter as visitas à vinha e à adega reservadas a pequenos grupos.

«O vinho é uma coisa que temos que beber com pessoas, que tem como objetivo dar prazer. Não há nada mais fantástico do que ver muitas pessoas contentes com o vinho e se, no fim, ainda nos dizem que o nosso vinho está fantástico, melhor.»

Mar de Rosas

O avô de Nicholas Von Bruemmer plantou castas de forma sistemática para ver como se desenvolviam nestes cinco hectares de vinha em torno da casa da família – há mais 2,5 hectares noutro lugar de Colares, com Malvasia e Ramisco, para fazer o DOP. «Ninguém sabia o que ia acontecer. Vinha um especialista de vinhos e dizia que determinada casta não ia funcionar, mas não era verdade.» O Casal de Santa Maria chegou a ter 23 castas distintas, mas «hoje reduzimos as castas a nove e são castas que gostam do clima, não sei porquê. O Pinot Noir, a Touriga Nacional, o Shiraz ficam contentes aqui.»

«Escolhemos fazer uma combinação de Touriga Nacional, para termos uma uva especial, portuguesa, misturada com Pinot Noir e Shiraz e, dependendo do ano, do sol, do clima podemos fazer um mix de que resulta um vinho muito agradável de beber.»

Agora o plano é polir o diamante em bruto que o neto diz ter encontrado no Casal Santa Maria. E o primeiro vinho desse projeto, dessa nova era, vai já para o mercado (seleto) em setembro. Chama-se Mar de Rosas e é um ousado vinho rosé que custa 22 euros.

«Escolhemos fazer uma combinação de Touriga Nacional, para termos uma uva especial, portuguesa, misturada com Pinot Noir e Shiraz e, dependendo do ano, do sol, do clima podemos fazer um mix de que resulta um vinho muito agradável de beber com mineralização e com estrutura, mas que ao mesmo tempo não é muito pesado. E creio que esta decisão foi um êxito.»

Nicholas Von Bruemmer assume querer criar uma feroz concorrência aos vinhos franceses. «Trabalhámos quase dois anos para chegar a um produto, um vinho rosado que é verdadeiramente, pelo menos, igual em todas as qualidades dos rosés franceses, com a diferença que é nacional, que é português e também vai ter um bom preço. Eu estou muito orgulhoso. [Este rosé] é a minha primeira experiência pessoal e estou de parabéns, estou muito contente. E toda a gente me tem dado os parabéns.»

Novos vinhos virão, em breve, mas serão sobretudo afinações do trabalho levado a cabo pelo barão Bodo. Nicholas Von Bruemmer quer escrever a sua própria história no Casal Santa Maria, com a mulher Myriam e os dois filhos, honrando a história e a tradição da família e desta casa de vinhos que ele diz ser orgulhosamente portuguesa.

PERFIL

Nicholas Von Bruemmer nasceu na Suíça em 1962. O pai morre quando este tem apenas dois anos e o avô Bodo Von Bruemmer assume-se com a figura paternal do pequeno Nicholas. Estuda em Zurique e em Londres, passa férias em Espanha e Portugal e casa, em 2003, com a sevilhana Miryam Abascal de Valdenebro, neta dos Marqueses de Ruchena, com quem tem dois filhos.

O título de barão de Bruemmer é herdado por Nicholas ser o primogénito numa linhagem antiga de, pelo menos, 600 anos, originária de Riga, hoje capital de Letónia. A avó de Nicholas pertencia também a uma influente família aristocrática alemã, referida pela primeira vez na História no século XII. O atual barão Von Bruemmer, que não utiliza o título, guarda um livro onde se encontram descritas todas as famílias da nobreza europeia e diz entre risos: os barões vêm sempre no fim, somos os pobres da aristocracia europeia».Mede 1,98 e usa um relógio Rolex.

O vinho

«Mar de Rosas», é um vinho rosé com produção limitada de 2000 garrafas, blend de Syrah, Touriga Nacional e Pinot Noir, sob a batuta da dupla de enólogos Jorge Rosa Santos e António Figueiredo, e chegará ao mercado em Setembro. De acordo com Fernando Melo, crítico de comida e de vinhos, este rosé teve «uma entrada meteórica para o topo dos rosés portugueses. Estreia bem conseguida, resultado do esforço assumido da casa e do enólogo de produzir vinhos de classe mundial. Toques salinos na boca, frescura bem trabalhada e um redimento aromático notável. Serve uma gama grande de petiscos».


Reportagem publicada originalmente a 3 de agosto de 2018.