Joana Astolfi: a portuguesa que cria montras para a Hermés e projeta restaurante com estrelas Michelin

Tem vinte projetos em curso e vinte em projeto. Um deles é a intervenção total no novo restaurante Belcanto, de José Avillez. Joana Astolfi vai pensar tudo: desde o espaço às fardas.

Texto: Marina Almeida / Fotografias Jorge Simão

Aos 43 anos, a artista, arquiteta e designer é um nome de referência associado ao luxo. Depois das montras da Hermès, vai contar histórias nas da Viúva Lamego e criar um corredor de luxo no NorteShopping.

Profusão. É esta a palavra que vem à cabeça a partir de meio da entrevista. Joana Astolfi brota ideias, imagens, pontos de vista, boa onda – e muitas palavras em inglês. Não é gratuito. Viveu fora de Portugal durante uns 12 anos, estudou Arquitetura em Cardiff (onde se licenciou com distinção), viajou pelo mundo. Depois regressou a casa, e a partir do Studio Astolfi, em Marvila, Lisboa, trabalha para o mundo.

Senta-se com uma equipa de vinte pessoas em secretárias largas, banhadas por janelas largas, algumas com vista para o Tejo. Têm cozinha, sala e escritório naquele espaço onde nascem as montras da Hermès do Chiado, os restaurantes de José Avillez ou o JNcQUOI, as lojas Claus, André Ópticas, entre outras. Estão rodeados de objetos, muitos deles despojos das montras, que hão de ganhar nova vida. É o oxigénio de Joana Astolfi, este diálogo permanente com os objetos. Deixemo-la respirar.

Há quem pense em inglês, há quem pense em francês, a Joana pensa em objetês, em objetos?
Ahahah! Objetês é bom… Bastante, sim. Os objetos estão muito presentes na minha vida desde o dia em que nasci, o dia zero da minha vida. Eu já em pequena era uma collector, sempre gostei de colecionar coisas, mas coisas já com uma segunda vida, vintage. Lembro-me de colecionar fotografias antigas de pessoas que eu nuncatinha conhecido, e começava a fazer histórias em cima das fotografias. Já tinha uma vontade de contar histórias com coisas de memória, que me traziam uma memória, ou coisas que eu não conhecia mas que me atraíam de alguma forma. E também cresci num meio bastante artístico, tinha a minha mãe galerista, o meu pai arquiteto e cresci rodeada por arte. Tem que ver com o meu mundo, e eu sendo filha única também estava muito envolvida naquilo tudo, brincava com os objetos, eram a minha brincadeira.

Há algum que transporte sempre consigo?
Quase sempre tenho uma lupa comigo. Gosto muito de ver as coisas ao pormenor e de ver coisas pequeninas, coleciono dicionários daqueles pequeninos, eu gosto disso. Tenho um lado voyeur muito grande, gosto de espreitar pelo buraco da fechadura, gosto das coisas que não estão logo ali chapadas na tua frente. Quando estamos a fazer montras para a Hermès, entre outros clientes, eu uso a minha lupa para ver se as coisas estão com o acabamento que eu gosto, com o rigor e a patine…

Esse olhar de lupa não é aquilo que nos dá quando chegamos, por exemplo, ao Cantinho do Avillez e temos a parede com aqueles objetos de cozinha [A Conversa ainda não Chegou à Cozinha] em que nós não precisamos de lupa, a Joana já pôs lá a lupa…
É verdade. Está a dizer uma coisa bastante bonita que eu percebo e em que me revejo. Eu já amplio um bocado as coisas para que o público possa desfrutar e fazer a sua viagem dentro da escala em que eu acho que as coisas devem ser vistas. A lente faz-te ficar mais atenta ao pormenor e é isso que eu tento sempre focar, focar sempre no pormenor.

N’A Conversa ainda não Chegou à Cozinha apresenta objetos do dia-a-dia. O que é que eles fazem às pessoas?
É um lote de 500 objetos ligados à cozinha. Estamos a festejar ali os anos 60, 70, muita gente quando vê a peça diz «ai eu lembro-me tão bem da minha avó» e é isso que eu quero, são essas as reações que me fazem feliz porque eu quero levar as pessoas para as suas raízes, para as memórias.

Nas montras da Hermès também coloca objetos do dia–a-dia em diálogo com as peças de luxo da marca. Qual« é a magia que acontece nas montras de luxo quando lhes coloca determinados objetos?
Uma vitrina é o passaporte de uma loja, no caso da Hermès é a forma principal de comunicar através das montras deles. Há uma linha muito ténue, muito delicada, que estabelece o balanço, o mise-en-scène e o produto que estás a querer celebrar nessa montra. Pode até ser só um. Eu criei uma série de piões, desenhados por mim, feitos de madeira maciça pelo torneiro, e usei-os para expor simplesmente cinco luvas de pele, cada uma a girar um pião. Ora um pião é uma peça muito artesanal, agora a tensão que se cria entre esse objeto e o objeto que se está a celebrar – o pião, madeira, crua; a luva, pele, polida,brilhante, com a luz em cima… Depois não pode haver muito mais informação. Muitas vezes nas montras é saber o que não fazer, é tirar três ideias, pôr no bolso, e celebrar só uma ou duas. Esse balanço todo, que demora muitos anos a ir polindo, é uma coisa muito importante. E de facto pôr uma peça muito every day object numa montra de luxo, sim, pode funcionar, mas tens de saber fazer isso muito bem!

Quando tem uma montra para fazer, a coleção é mostrada num catálogo, na net, ou tem de pegar nas peças, cheirá-las?
Tenho de ter contacto com o que vou apresentar, embora nem sempre aconteça. «Mostrem-me o que vocês querem que eu celebre. Isto, isto e isto? OK», então eu vou olhar para o produto e vou ver onde é que o meu imaginário me leva com este produto, que tipo de narrativas posso criar.

Celebrar um produto. Não é vender um produto?
Não! That’s the final aim, o goal – hoje estou cansada, falo mais em inglês –, o objetivo final é vender o produto, obviamente. O que eu quero é que as pessoas se apaixonem pelo produto, para depois quererem comprá-lo. Há uns que podem, outros que não podem, no caso das marcas de luxo. Mas todos podem sonhar. Eu posso ter um sem-abrigo a sonhar tanto como uma senhora que já comprou cem malas nessas marcas. O meu objetivo principal é celebrar, como é que eu vou celebrar este produto? Como é que vamos criar esta festa à volta dele? Primeiro vamos celebrar, depois vamos vender.

Tem falado muito da importância do antigo. Qual a importância do novo?
A-ha! O novo é o que eu faço no meu processo criativo, é a transformação. Eu viajo bastante e eu pesquiso bastante, eu estou muito updated, vou tendo muito contacto com muita gente criativa com muito talento, vou-me inspirando. Isso é a minha bagagem e é aí que eu crio o meu hard disk, de toda a informação que eu vou absorvendo de hoje, do século xxi.

Quando estava a estudar Arquitetura, o seu pai alugou um helicóptero para fazer o reconhecimento do terreno para o projeto de um aquário na Crismina, em Cascais. O que é que isto transmite? Que o céu não é o limite…?
É verdade! O céu não é o limite e eu apanhei muito essa história com o meu pai que hoje tem 84 anos, já está velhão. O meu pai era um aventureiro, ele mostrou-me que tudo é possível. Tens é de querer e de acreditar. E nessa altura em que eu estava a fazer o meu projeto final de Arquitetura, eu podia escolher qualquer sítio no mundo e qualquer tipo de projeto, e decidi fazer perto da minha casa na altura, que era em Cascais, fazer um museu-aquário no forte da Crismina. Está ligado às minhas raízes por causa do mar. E o meu pai disse assim [começa a falar com entoação brasileira] ai você quer ver o terreno? A gente devia ver de outro ângulo, ao pormenor. E eu disse ó pai, é difícil andar aqui, é uma encosta, lá em baixo está o mar, você vai cair, eu também. [Entoação brasileira] Não tem problema minha filha, a gente vai resolver isso. No dia a seguir chegou a casa e disse: aluguei um helicóptero, prepara-te que vamos voar. E fomos embora os dois. Durante umas horas fotografámos e foi maravilhoso, porque percebi o que era o meu terreno. O meu pai é muito importante na minha vida, e a minha mãe também. São dois grandes pilares. Ele mostrou-me que sonhar é muito importante e tudo é possível.

Joana Astolfi fotografada por Jorge Simão numa produção para a DN Ócio

Esse projeto da Joana arquiteta nunca foi construído. Gostava que fosse?
Na altura em que acabei o projeto e terminei o meu curso com distinção, muita gente me disse para ir à câmara com o projeto. Só que esse trabalho burocrático it’s not for me. Se tivesse vindo alguém ter comigo e dissesse estamos interessados era uma coisa, agora eu ir com o projeto para mostrar, esquece. Mas adorava que tivesse avançado.

Qual a sua relação com a natureza?
No verão gosto muito de ir para a praia e no inverno gosto de ir para o Alentejo, para a casa de amigos, estar à frente da lareira, dar passeios. É para mim um alimentar que está lá mas é pontual. Hoje em dia eu preciso de sentir o input urbano, preciso de sentir este buzz. Mas isto hoje. Daqui a 20 anos imagino-me completamente noutro contexto, aí sim a voltar para perto do mar, ter uma cabana de madeira, muito bonita, adorava. A simplicida desofisticada. A sofisticação e o luxo têm muitas perspetivas e eu claramente não sou glitzy, glitzy. Para mim o luxo já passa por outros layers.

E essa cabana, era capaz de a desenhar para ser mesmo construída?
Claramente. Já estou a pensar nisso há algum tempo. Isso vai acontecer, tudo no seu tempo.

Não tem vontade de criar peças, objetos que todos pudéssemos usar no dia-a-dia?
Tenho um sentimento estranho em relação a criar objetos para serem produzidos em série. Sinto que posso criar uma linha Astolfi de mobiliário de peças, utilitárias, e que pode até ser uma coisa muito viável e rentável para o estúdio. Estou a considerar isso mas não vou dizer que é a minha paixão número um porque eu gosto de fazer peças únicas para celebrar um espaço, um momento, uma peça, uma montra. Eu gosto de fazer o custom made, o exclusivo. A única peça que eu tenho e que continuo a produzir são os ishells [2008], que é vendida em milhares de países do mundo e de que recebo muitas encomendas. Acho que nunca me vou cansar dela. Étão simples e é um click tão fácil. Ela é intemporal, tão poética, e faz todo o sentido nesta geração acelerada em que nós estamos, em que é tudo iPhones, iPads, itudo… para um segundo e ouve o mar através de uma concha, é bom. Touch your roots.

Que projetos tem em carteira?
Estou a trabalhar com a Viúva Lamego, vamos fazer as primeiras montras para eles, estamos a fazer o novo Belcanto do José Avillez. Está a ser uma viagem muito interessante porque ali vamos intervir a todos os níveis. Na arquitetura total, interior design, e intervenções artísticas no espaço, e o mise-en-scène das loiças, das fardas, vamos ter uma intervenção global. É por isso que eu gosto de trabalhar com o Zé, porque ele tem essa visão, como eu, de que um restaurante (ou uma loja) é uma experiência. As pessoas compram bilhete para uma experiência. Num restaurante, por exemplo, a comida são quarenta por cento.

Quando pensa nesses espaços pensa no Instagram, como é que pode ser fotografado?
Claro. Então com o Zé é importantíssimo, é a primeira coisa que ele diz logo. Isto tem de ser instagramável. Primeiro eu dizia, «tá bem tá», mas agora eu percebo. Estamos numa era digital, ponto final. Mas eu não desenho um espaço a pensar se vai ficar bem na fotografia, esse é um ponto de chegada. É óbvio que se ficar como eu sonhei, o espaço tem de dar fotos bonitas, senão I’m fucked… [risos] podes até pôr mesmo essa frase…risos] I’m fucked, something went dramatically wrong.

Falávamos de projetos na calha…
[Levanta-se e vai buscar o caderno]. É que são tantos projetos, devemos ter para aí quinze projetos a decorrer e para aí uns vinte no pipeline. Estamos a fazer um city portrait através dos meus olhos para uma marca francesa de jardins portáteis, a Bac Sac. No NorteShopping estamos a trabalhar com a Sonae para um corredor de luxo, vai-se chamar Galeria e será implementado em 2020, estamos a fazer a curadoria de todo o interior design daquela zona, que tem zonas de lounge, tea bar, piano bar… Estamos com o kick off de um hotel de luxo em Tavira, temos uma encomenda da Presidência da República de um monumento para Lisboa. Ainda estamos a pensar no que vamos fazer e acho que vai ser uma coisa muito interessante. Há muita coisa aqui a acontecer…

Para fazer projetos no âmbito do luxo precisa de se movimentar nesse meio ou os seus sonhos entram aí também?
O luxo é uma palavra muito larga. Eu cresci num meio em que estávamos bem. Eu andava no Saint Julian’s, o meu pai tinha um ateliê bom, nós viajávamos muito, o meu pai sempre gostou de viajar com conforto. Mesmo quando fomos fazer um safari no Quénia era sempre em cabanas, mas de cinco estrelas. Eu cresci já com essas referências, estou muito à vontade no mercado do luxo. Mas se me derem umas pantufas de restos de tecidos ou uma mala de pele de vinte mil, trinta mil euros, o desafio para mim é exatamente o mesmo. Eu vou pôr tanto amor numa montra como na outra. Em vez de luxo, eu gosto de dizer a simplicidade sofisticada. Onde é que vou buscar a inspiração para trabalhar o luxo? Nas coisas mais simples do mundo. Na casa da minha avó, sentada no balcão do senhor Manel a beber uma lambreta…

Consegue parar de trabalhar?
Não. Estou sempre em modo pesquisa. Sou curiosa. A curiosidade é muito importante para qualquer pessoa, mas nas artes é muito importante mesmo. É o poder de observação. O meu maior medo é o escuro, é deixar dever. Acho que morria. Mesmo.

Se fosse um objeto, qual seria?
Ah! That’s a good question, a really good question. [longo silêncio] Há muita coisa que eu gosto. Eu tinha uma caixa que era da minha avó, onde ela guardava as joias e as coisas mais íntimas. Quando ela morreu eu fiquei com aquela caixa. Durante muitos anos, abria a caixa e contava os meus segredos para dentro da caixa e depois fechava a tampa para ficarem lá as minhas coisas mais íntimas. Posso dizer que as caixinhas de vários formatos sempre foram uma coisa que eu gostei. Gavetas e caixas, caixas e gavetas. Uma coisa que eu amo são cabinets, cómodas com gavetinhas pequeninas, com coisas para descobrir. Para pôr cartinhas dobradas em vinte pedaços e passados dez anos abres aquela gaveta e – ah! – voltas exatamente aquele momento em que tu estavas.


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