A história da Claus Porto onde «não se fabrica melhor nem tam bom!»

 

Pequenas obras de arte, cujos motivos impressos não deixam ninguém indiferente. Ali estão 130 anos de história e de bem fazer. Produzidos e manuseados com todo o cuidado, embrulhados e embalados um a um, pelas mãos experientes e habilidosas de quem dedica uma vida a esta marca, os sabonetes, fragrâncias e velas da Claus Porto são o que podemos chamar de verdadeiro luxo.

Texto Sandra Martins Pereira

Sobreviveu à queda da monarquia, a duas grandes guerras mundiais, à revolução dos cravos de 1974 e a períodos da economia mais turbulentos. Cada embalagem é um regresso na história, a história que começou a ser escrita por dois alemães, em 1887: Ferdinand Claus e George Schweder. Dos mesmos pouco se sabe, apenas que Ferdinand Claus teria conquistado a estima dos portuenses, enquanto que Georges Ph. Schweder era engenheiro químico que viera para Portugal como analista e que se estabeleceram, no Porto, para abrirem aquela que seria a primeira fábrica nacional de perfumes e sabonetes Claus & Schweder.

Com a ideia de democratizar os produtos de beleza em Portugal, uma vez que só estavam ao alcance das classes mais abastadas, os aromas e o design das embalagens dos produtos inspirados na Belle Époque, rapidamente começaram a ganhar fãs.

Dez anos após a abertura, a Claus & Schweder começou a receber os seus primeiros prémios na «Exposição Industrial Portuguesa», que tivera lugar nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Seguiu-se a medalha de ouro na Exposição Universal de Paris em 1900 e em 1904 as medalhas de ouro na Exposição Universal de Saint Louis, nos Estados Unidos da América e na Exposição Agrícola do Porto. Galardões que se foram repetindo ao longo da sua existência.

Por razões de saúde George Schweder vê-se obrigado a afastar da empresa em 1903 e o português Achilles de Brito, na altura com 24 anos, acaba por juntar-se à equipa com a função de guarda-livros.

Por razões de saúde George Schweder vê-se obrigado a afastar da empresa em 1903 e o português Achilles de Brito, na altura com 24 anos, acaba por juntar-se à equipa com a função de guarda-livros. Dois anos volvidos é a vez de Willy Thessen, perfumista e químico alemão, juntar-se à Claus & Schweder para ocupar o lugar de diretor técnico Mais tarde, juntamente com Achilles de Brito tornar-se-iam acionistas da empresa em 1908. Um ano depois, Ferdinand Claus, Willy Thessen e Achilles de Brito assumem formalmente o cargo de diretores e a empresa é registada com o nome de Claus & Schweder, Sucessores.

Os anos vão decorrendo e em 1916, com a Primeira Guerra Mundial a alastrar-se pela Europa e depois da Alemanha ter declarado guerra a Portugal, Ferdinand Claus abandona o país, seguido de Willy Thessen. É então, que devido ao processo de nacionalização de bens e propriedades pertencentes a cidadãos estrangeiros provenientes de países com que Portugal estivesse em guerra, a empresa se vê obrigada a passar por diversas mudanças de propriedade, tornando-se a primeira «Companhia Portugueza de Perfumaria» e mais tarde, em 1919, fundindo-se com a «Companhia Industrial do Norte», designação que ficou registada em vários produtos da época.

Tempos conturbados

Apesar do período conturbado que afetou de alguma forma a Claus & Schweder, Achilles de Brito continuava a acreditar no potencial da empresa e juntamente com o irmão Affonso Brito fundou uma empresa de cosmética, a Ach. Brito e logo os produtos de higiene e beleza começaram a chamar à atenção dos consumidores portugueses, muito devido às fórmulas inovadoras e às embalagens elaboradas, como Achilles Brito houvera aprendido na Claus & Schweder.

De regresso a Portugal em 1920 está Willy Thessen, juntando-se de novo ao negócio como sócio acionista da nova empresa. Em 1924, o Grupo Ach. Brito adquire os ativos da Claus & Schweder, incluindo a fábrica original e os respetivos equipamentos, voltando a juntar Achilles de Brito e a Ach. Brito à marca Claus Porto. À semelhança do que acontecera com a empresa fundada pelos empresários alemães, também a Ach. Brito inicia um ciclo de prémios e o seu sabonete «Patti», lançado em 1929, numa homenagem à famosa cantora de ópera portuguesa, Adelina Patti, torna-se um dos produtos mais populares e importantes da empresa. Em 1936 surge uma das coleções mais emblemáticas da empresa: Musgo Real.

Bodas de Ouro

Cinquenta anos volvidos, a Claus Porto celebra as «Bodas de Ouro» com uma edição especial comemorativa, produzindo vários produtos. Achilles de Brito acabaria por falecer em 1949, com 69 anos, e os seus herdeiros fundam uma nova empresa dedicada ao cultivo de plantas aromáticas, com o objetivo de fornecer os óleos essenciais à empresa-mãe. A companhia viria a ser incorporada na Ach. Brito em 1956.

Até 1953, a Ach. Brito e também a Claus & Shweder utilizavam impressores externos para produzirem os seus rótulos, etiquetas e embalagens, mas a partir desta data e sendo a componente artística um dos fatores de sucesso da marca, decidem montar o seu próprio estúdio de litografia e impressão, permitindo reproduzir as etiquetas e rótulos feitos à mão em grande escala. A partir daqui a Claus Porto passa a poder fazer o processo de produção completo, desde o fabrico até à finalização da embalagem.

São os quatro filhos de Achilles de Brito que herdam os destinos da companhia, mas quando as três irmãs saem da empresa em 1963 é Achilles José Alves de Brito que se torna o único herdeiro.

Dez anos mais tarde, a empresa volta a sofrer novo volte face, desta vez com o afastamento de Willy Thessen por motivos de saúde e a morte de Affonso Alves de Brito. São os quatro filhos de Achilles de Brito que herdam os destinos da companhia, mas quando as três irmãs saem da empresa em 1963 é Achilles José Alves de Brito que se torna o único herdeiro. Em 1966, os filhos de Achilles José de Brito (Delfim Ferreira de Brito e Aquiles Delfim Ferreira de Brito) tornam-se acionistas da empresa. Mas em 1981, este último acaba por falecer aos 39 anos, deixando aos seus filhos (a 4.ª geração), Aquiles de Brito e Sónia de Brito as suas ações da empresa. Sete anos depois, Achilles José Alves de Brito morre com 73 anos.

Nova Era

Estamos em 1994 e uma nova era está preste a começar para a Claus Porto, os bisnetos de Achilles de Brito decidem tomar conta da liderança da empresa. Aquiles de Brito, então com 22 anos deixa a vida académica para se dedicar de corpo e alma à nova vida da Claus Porto. São várias as iniciativas lançadas pelos novos empreendedores, que estabelecem uma parceria com um distribuidor americano para levar os produtos da Claus Porto para os EUA. Uma parceria que vem ajudar a reposicionar a empresa como uma marca de luxo e a atrair clientes dos EUA, Canadá e Grã-Bretanha. Vende-se a antiga fábrica do Porto, abrindo uma outra em 2007 em Vila do Conde. Com mais de 10 mil metros quadrados, o novo espaço reúne design, produção, embalamento e armazenamento debaixo do mesmo teto. São lançados 60 novos produtos, incluindo a categoria de casa e tratamento de corpo, agora com uma imagem renovada e um novo site.

Em 2015, a sociedade de capitais de risco portuguesa Menlo Capital adquire uma participação maioritária do negócio, mas Aquiles de Brito continua como acionista da empresa. A Claus Porto assume-se em 2016 como uma marca lifestyle de luxo e reúne um grupo de criativos europeus. Anne-Margreet Honing é a nova diretora criativa que coordena a equipa e a reconhecida perfumista britânica Lyn Harris é convidada para desenvolver as novas velas aromáticas da coleção Deco e mais tarde uma nova fragrância.

Ao mesmo tempo a marca constitui uma subsidiária nos EUA, relança o site com um layout mais claro e funcional e dá uma nova imagem à linha Musgo Real. São desenvolvidos novos produtos como loções para o corpo e mãos, cremes de barbear e águas de colónia.

As novas lojas

É também em 2016, que a Claus Porto abre a sua primeira loja em Portugal. No número 135 da Rua da Misericórdia, em Lisboa, onde em tempos existiu uma farmácia, surge pelas mãos do arquiteto João Mendes Ribeiro este novo espaço. Com 60 metros quadrados, a loja divide-se em dois pisos, um dedicado à Claus Porto e um piso inferior onde está a coleção de cuidados para homem Musgo Real e uma cadeira tradicional de barbeiro. Entre os dois espaços existe uma pequena zona museológica com a história da marca.

A loja, composta por três pisos, com 300 metros quadrados, esteve a cargo do arquiteto João Mendes Ribeiro.

Em 2017 e com a comemoração dos 130 anos da marca, a Claus Porto inaugura a sua Flagship Store situada na rua das Flores, no Porto. A loja composta por três pisos, com 300 metros quadrados, esteve a cargo do arquiteto João Mendes Ribeiro.

No rés-do-chão os visitantes encontram toda a área dedicada às coleções Clássico, Água de Colónia, Deco e Musgo Real. Ali, os consumidores podem experimentar alguns dos produtos, já que encontram um lavatório “gigante” em mármore de Estremoz concebido para esse fim.

O piso intermédio é dedicado à história da Claus Porto, com fotografias, documentos, móveis originais, entre outras peças, que de forma cronológica mostram também a evolução da sociedade portuguesa ao longo dos anos.

Já o terceiro piso, que conta com um jardim vertical é um espaço multifuncional, como se de um apartamento se tratasse. Ali o visitante pode descansar e participar em alguns workshops de fabrico de sabonetes ou de tipografia tradicional.

Esta é uma história que ainda não está fechada, até porque como se lê num texto escrito em 1937 para comemorar as Bodas de Ouro da empresa: “Não se fabrica melhor nem tam bom!”.