Galegos em Lisboa: de aguadeiros a milionários

Paula Ferro, Manolo Bello, Amâncio Ribeiro, Álvaro Muiños, Alfonso Mateo e José Aser, fotografados num dos terraços do palacete que serve de casa à Xuventude de Galicia.

Começaram a chegar há 500 anos a Lisboa, mas foi no século XVIII e XIX que vieram em força e para ficar. De moços de fretes e recados, carvoeiros e aguadeiros passaram a donos de tabernas, carvoarias, mercearias, restaurantes e hotéis. Muitos tornaram-se grandes industriais, homens de negócios, profissionais liberais e intelectuais. Fizeram da capital portuguesa a sua casa, mas apesar de se sentirem tanto de cá como de lá, ainda hoje os seus descendentes usam a expressão “colónia galega” para falar dos seus. E continuam a sentir morrinha da terra ancestral.

Texto de Catarina Pires | Fotografias de Sara Matos/Global Imagens e Arquivo DN

Se dúvidas houvessem de que somos irmãos, umas horas à mesa com um grupo de galegos bastariam para as dissipar. A língua é quase a mesma, a conversa puxa a conversa, tudo fala ao mesmo tempo e a boa disposição é pontuada por saudável picardia.

Manolo Bello é o da voz grossa. O pai veio trabalhar para Lisboa e a mãe veio ter com ele, para ficar, tinha Manolo cinco anos. Fez-se jornalista e depois produtor de televisão e quer contar uma história que diz bem do sucesso da imigração galega em Lisboa.

“Sabes que uma das principais atividades dos galegos em Portugal era a de aguadeiro, não é? Iam às fontes buscar água e levavam-na à casa das pessoas, quando não havia água canalizada. Ora, conta-se que um galego escrevia à mãe e dizia: minha mãe, eu estou bem, o clima é bom, aqui come-se bem, os portugueses são muito simpáticos, a água é deles e nós vendemos-lha”, conta, com uma gargalhada.

Em março de 1928, o Notícias Ilustrado, suplemento do Diário de Notícias, dedicou quase toda a sua edição à “colónia galega” em Lisboa.

A fama, e o proveito, de trabalhadores incansáveis e com talento para o negócio ninguém lhes tira. Está documentada na literatura, em estudos académicos e sobretudo na história dos galegos em Portugal. Em março de 1928, o Notícias Ilustrado, suplemento do Diário de Notícias, dedicou-lhes uma edição, louvando o árduo labor, o empenho inestimável, a conduta irrepreensível, o espírito empreendedor e as afinidades linguísticas, culturais e de carácter que tanto contribuíram para a sua plena integração na sociedade lisboeta.

“A Solmar, o Ramiro, o Gambrinus, o João do Grão, a Ginginha, no Largo de São Domingos, tudo de galegos. Até houve um capitão de Abril de origem galega, o Duran Clemente”

À mesa do restaurante da associação Xuventude de Galicia – Centro Galego de Lisboa, a que se sentam, além de Manolo Bello, Amâncio Ribeiro, Álvaro Muiños, Paula Ferro, Alfonso Mateo e José Aser, vão surgindo nomes de galegos que se distinguiram na sociedade portuguesa. São muitos, de diversas áreas, dos negócios às letras, da ciência à medicina.

“A Solmar, o Ramiro, o Gambrinus, o João do Grão, a Ginginha, no Largo de São Domingos, tudo de galegos. Até houve um capitão de Abril de origem galega, o Duran Clemente”, diz Álvaro Muiños, que considera que a proximidade geográfica e da língua são as grandes explicações para a preferência dos galegos por Lisboa em vez de Madrid. “A maioria dos galegos até aos anos 1970 não falava castelhano”, concorda Manolo Bello.

“Tu és o galego mais rico que aqui está, pá”

Agapito Serra Fernandes, fundador da Xuventude de Galicia, foi um dos galegos que se distinguiu no início do século XX. Empresário e industrial na área da confeitaria e da restauração, construiu um bairro operário, o Estrela D’Ouro, na Graça, para os seus trabalhadores, muitos deles compatriotas. O bairro tinha até um cinema – o Royal Cine – onde foi projetado o primeiro filme sonoro em Portugal.

“O senhor Manuel Boullosa, quando comprou esta casa para a Xuventude de Galicia, queria retribuir aos galegos o que eles lhe tinham dado no início da sua vida.”

Manuel Cordo Boullosa, que doou à associação o palacete que a alberga desde 1988, na Rua Júlio de Andrade, perto do Jardim do Torel, também assume lugar de destaque na história desta comunidade. Fez fortuna com o petróleo, foi banqueiro, homem de negócios, milionário e filantropo, sempre empenhado em estreitar os laços entre a comunidade galega e a portuguesa.

Estátua em honra de Manuel Cordo Boullosa, no pátio do palacete da Rua Rua Júlio de Andrade, doado pelo empresário à Xuventude de Galicia e que é a sua atual sede.

 

“O senhor Manuel Boullosa, quando comprou esta casa para a Xuventude de Galicia, queria retribuir aos galegos o que eles lhe tinham dado no início da sua vida. A maioria trabalhava no carvão e no petróleo, quase todas as carvoarias tinham petróleo, e quando o senhor Boullosa decidiu entrar no petróleo, os galegos compravam-lhe a ele e quando chegava a Shell ou a Mobil já estavam abastecidos. Ele nunca se esqueceu disso e daí ter doado este edifício”, conta José Aser, que foi presidente da associação durante 16 anos e teve um papel fundamental no resgate do palacete, ocupado pelo MRPP durante o PREC, para morada do Centro Galego de Lisboa, o que viria a acontecer apenas em 1988.

“Um homem extraordinário com uma vida extraordinária”, lembra Alfonso Mateo, que, quando levava a Manuel Cordo Boullosa as atas das reuniões da Assembleia Geral da Xuventude de Galicia para assinar, ficava um pouco com ele à conversa.

“Os galegos são muito trabalhadores, podes perguntar a quem quiseres. E em toda a parte do mundo encontras um”, diz Manolo Bello.

“O que me assombrava a mim era que um homem tão rico, tão rico, estivesse tão só. Fazia tempo para ficarmos ali a conversar. Queixava-se de que a maioria só vinha falar-lhe para pedir-lhe alguma coisa. Uma vez contou-me uma história fantástica, a propósito de eu ser de Ourense. Estava de visita a uma ilha grega e lá encontrou um galego de Ourense, um amolador, que lhe disse que ia a caminho da Galiza (a pé e amealhando pelo caminho) para chegar à terra a 12 de agosto, que era o dia da festa da aldeia”, conta Alfonso.

Manolo ri de espanto e diz que é mesmo assim. “Os galegos são muito trabalhadores, podes perguntar a quem quiseres. E em toda a parte do mundo encontras um”. Os outros confirmam.

Amâncio Ribeiro, que prefere ouvir a falar, é trazido por Manolo à ribalta. É um bom exemplo da história da comunidade galega em Lisboa. Os antepassados chegaram à cidade em 1870. Foi nascer à Galiza, onde ficou com a mãe e os avós até aos sete anos, mas regressou assim que a idade determinou a entrada na escola. O pai tinha uma taberna no Cais do Sodré, o negócio cresceu para as carvoarias e hoje Amâncio, que, em miúdo, apesar de estudante, ia muitas vezes trabalhar para trás do balcão, vender petróleo ou vinho, a mando do pai, é um bem-sucedido empresário na área da hotelaria e restauração.

“Tenho umas coisas por aí”, diz. “Umas coisas? Tem o Hotel Santa Justa, o Prata, o restaurante Pinóquio. Tu és o galego mais rico que aqui está, pá”, provoca Manolo, para logo acrescentar: “mas a humildade é uma característica nossa. Também se fosse vaidoso era logo posto de parte, vens à colónia e há ricos, há pobres, sabes lá quem são os ricos e os pobres. Aqui não há diferenças desse tipo, conhecemo-nos todos de pequenos”.

“Cuidado”, olha para Alfonso “há uns que foram corridos da terra deles e vieram para cá”.

“Estamos muito bem integrados, o tempo é muito melhor que na Galiza e depois encontras-te muito perto, se tens saudades, pegas no carro e vais. A Galiza fica agora a quatro horas de Lisboa”, diz Paula Ferro.

Sim, conhecem-se quase todos de miúdos. A exceção vai para Alfonso Mateo, gestor, que só chegou a Lisboa no fim dos anos 1980, para abrir uma sucursal da companhia em que trabalhava. Foi dos primeiros de uma vaga diferente de emigração.

“Portugal era naquela altura o primeiro país para onde se ramificavam as empresas espanholas, era o primeiro passo de internacionalização, eu era novinho, apanharam-me e, pumba, vim para aqui. Depois fui para América Latina, mas voltei, pelo clima e por causa de uns amigos que me pagam uns almoços”, diz a rir.

Paula Ferro, há sete anos em Lisboa, é o rosto mais jovem dessa nova vaga. Não tinha família em Portugal, só o namorado, que se fez marido. Veio por ele, também galego, que já trabalhava na capital portuguesa e daqui não queria sair, e pelo trabalho: ser diretora do Hotel Santa Justa. Hoje não pensa em voltar.

“A verdade é que estamos muito bem integrados, já tive dois filhos cá, vou a pé para o trabalho, o tempo é muito melhor que na Galiza e depois encontras-te muito perto, se tens saudades, pegas no carro e vais. A Galiza fica agora a quatro horas de Lisboa”.

José Aser foi presidente da Xuventude de Galicia durante 16 anos. Álvaro Muiños é o atual presidente.

“A Xuventude da Galicia era e é um ponto de encontro”

“Antes era um dia inteiro para lá chegar”, lembra Álvaro Muiños, engenheiro mecânico e atual presidente da Xuventude de Galicia, a que está ligado desde muito novo. Álvaro nasceu em Lisboa, mas os pais são ambos galegos e a ligação à terra e à comunidade foi sempre muito forte. Hoje, luta para manter a viva a associação criada a 10 de novembro de 1908 como ponto de encontro da “colónia galega” em Lisboa.

“A associação Xuventude de Galicia – Centro Galego de Lisboa continua a ser essencial para divulgar a cultura galega e manter vivas as tradições”, diz José Aser.

Com 111 anos de história, a associação foi-se adaptando aos tempos e à própria evolução da “colónia”. “Antigamente, as pessoas juntavam-se mais para comer, beber, cantar, dançar, conviver. Tínhamos um grupo coral, formado em 1956, os Anaquinõs da Terra, que foi um boom na altura, havia bailes, juntava-se aqui muita gente. Hoje, as coisas são diferentes, mas temos a escola de música e a escola de dança, temos as aulas de flamenco e sevilhanas, entre outras, e de diversos instrumentos, entre os quais se destaca a gaita galega, temos cursos de artes visuais, temos os eventos gastronómicos, conferências, lançamentos de livros, exposições, encontros culturais. Procuramos dinamizar a casa e as atividades e consolidar a situação financeira, porque estas instalações exige muito em termos de manutenção.”

José Aser, nascido em Portugal, mas “quimicamente galego puro, de pai, mãe, avós e bisavós”, e que também presidiu à Xuventude de Galicia, diz que era no Centro Galego de Lisboa que os patrícios se juntavam “para matar a saudade, a morrinha”. “Hoje já não é tanto assim, mas esta associação continua a ser essencial para divulgar a cultura galega e manter vivas as tradições”.

O pai tinha uma taberna e uma mercearia, José Aser fez-se engenheiro químico no Instituto Superior Técnico. “‘O moço da taberna em vias de ser patrão’, descrevia assim Rafael Bordalo Pinheiro o galego. De moços de recados passaram a donos de tabernas e hotéis e os filhos e netos já se fizeram médicos, engenheiros, arquitetos. É esta a história da comunidade galega em Lisboa. E para isso contou muito a solidariedade e a entreajuda tão própria dos galegos”, conclui o antigo presidente da Xuventude de Galicia.