Gala Michelin 2020: orgulho português no meio da festa espanhola

Gala do Guia Michelin 2020 que decorreu em Sevilha, Espanha.

Aplausos para os chefs que representaram Portugal . Mas quase tímidos quando comparados com os festejos espanhóis a cada nova estrela conquistada pelos seus na gala das estrelas do Guia Michelin, que se realizou esta quarta-feira em Sevilha.

Reportagem de Filipe Gil, em Sevilha

A cada novo restaurante estrelado mais manifestações efusivas presentes no Teatro Lope de Vega, na 110ª edição da gala do Guia Michelin. Entre muitas estrelas para restaurante espanhóis – 32 no total -, Portugal arrecadou cinco. Tantos quantos os chefs com restaurantes em Portugal que subiram ao palco decorado com o mesmo encarnado tradicional dos guias Michelin.

Logo após o final da cerimónia era por lá que andava Martín Berasategui e com duas jalecas vestidas, uma sobre a outra. O espanhol passou a ter 12 estrelas no total dos seus restaurantes. Duas novas ganhas nesta noite de Sevilha, e uma delas no “Fifty Seconds” em Lisboa, onde é secundado pelo chef Filipe Carvalho. (A outra estrela foi a estreia do seu restaurante de Bilbao “Ola Martín Berasategui”).

“É o meu primeiro projeto fora de Espanha, e só com portugueses, pilotado pelo chef Filipe [Carvalho] e por toda a equipa. No país que é uma inveja para todo o mundo pela qualidade das suas matérias primas que têm”, comenta o chef entre sorrisos e felicitações de outros que passavam por perto.

Martin Berasategui e o chef português Filipe Carvalho, responsável pelo Fifty Seconds que ganhou a primeira estrela Michelin na edição de 2020.

São agora 12 estrelas no total da constelação Berasategui. “Sou o cozinheiro do mundo com mais estrelas Michelin no seu país (11) e agora é continuar a tentar ser o melhor profissional. Sempre. E como sou inconformista e quero sempre mais, vamos trabalhar para ter mais estrelas em Portugal”.

E entre os chefs portugueses vencedores, era Rui Paula o mais solicitado. Venceu a segunda estrela para o seu “Casa de Chá da Boa Hora” e juntou-se a ainda pequena constelação de, agora, sete restaurantes com duas estrelas em Portugal.

Rui Paula confessou que a partir do momento em que venceu uma estrela Michelin quis mais. “Com a equipa consistente que tenho e com algumas mudanças no serviço e na aposta de um produto cada vez mais fresco conseguimos dar a entender que ir ao nosso restaurante é uma experiência diferente”.

chef Rui Paula conquistou a segunda estrela Michelin para o seu restaurante Casa de Chá da Boa Hora, em Leça da Palmeira.

Quanto ao futuro? O chef quer mais, admite. “Para já não vou aumentar os preços (risos) mas vamos aprimorar ainda mais no serviço e começar a trabalhar para conquistar a terceira estrela. Respeito muito os critérios dos inspetores Michelin, mas acredito que temos qualidade em alguns restaurantes em Portugal para a terceira estrela”.

Um dos estreante portugueses na conquista das estrelas Michelin foi o restaurante de Viseu, o “Mesa de Lemos”, do chef Diogo Rocha que explicou ser “o resultado de toda a equipa e da estrutura do restaurante que sempre acreditou em mim. E agora é o êxtase,as palavras são poucas”.

O restaurante com seis anos, trabalha uma cozinha portuguesa e sazonal. “Vamos agora procurar a estabilidade da estrela conquistada. Acredito que atualmente o ‘Mesa de Lemos’ é restaurante de uma estrela. Depois daqui a uns pode ser que o discurso mude”.

Regressar à cada Michelin

De regresso às estrelas Michelin, está o chefportuguês Rui Silvestre que voltou a ganhar uma estrela agora no “Vistas”, restaurante no Monte Rei em Vila Nova de Cacela. Rui Silvestre, que em 2016tinha ganho a distinção no restaurante “Bon Bon” no Carvoeiro (e fora o mais jovem chef português, com 29 anos, a conquistar a distinção) explicou ao DN que voltar a ter a estrela “é um sentimento de ter feitouma longa viagem e regressar a casa”.

Rui Silvestre volta a ser distinguido com uma estrela Michelin, agora no Vistas em Vila Nova de Cacela.

Igualmente de regresso às estrelas o francês Vincent Farges, que já havia conquistado a distinção aquando da sua passagem pela Fortaleza do Guincho, voltou às estrelas agora para o restaurante lisboeta “Epur”, no Chiado. “Foi um reconhecimento de muito trabalho, de um ano duro e com muito sacrifício. Para a equipa é um grande reconhecimento. Agora o mais complicado é trabalhar para a manter”.

Quem não conseguiu manter as estrelas em Portugal foram os restaurantes l’AND do chef José Miguel Tapejo, o Willie’s, Vilamoura do chef Willie Wurger e ainda o restaurante do chef Henrique Leis que renunciou à classificação. Mas de estrelas perdidas não se fala numa cerimónia que se quer de festa.

No meio de tanto alarido espanhol, que continuaram a festa depois de conhecidos os vencedores, os chefs portugueses e as suas equipas ficaram, certamente, a sentirem-se orgulhosos e com a sensação que faltará pouco, muito pouco, para que uma terceira estrela venha finalmente morar em Portugal.