Os rivais do Flamengo no futebol carioca

Mural junto à estação do metro do Maracanã, no Rio de Janeiro. Nele estão pintados os futebolistas Garrincha (Botafogo), Fred (Fluminense), Roberto Dinamite (Vasco da Gama) e Zico (Flamengo).

Se a antiga capital do Brasil é maravilhosa, também o deve aos quatro gigantes do seu futebol – Fla, Flu, Vasco e Botafogo – e a um sem-fim de craques que reinventaram nas suas favelas, nos seus morros, nas suas areias, um jogo criado por ingleses.

Texto de João Almeida Moreira, em São Paulo, Brasil

Os espetadores franceses, os jogadores polacos e o árbitro sueco julgavam que já tinham visto tudo no futebol até àquele 5 de junho de 1938, em Estrasburgo, no duelo dos oitavos-de-final do Mundial de França entre o Brasil e a Polónia. Mas não tinham. Leónidas da Silva, o melhor jogador brasileiro à época, apresentou um repertório de dribles tão extraordinário, incluindo um exótico pontapé de bicicleta, que estabeleceu ali, naquele dia e naquele local, um marco zero na história do futebol.

Os chineses podem reivindicar ser os inventores do cuju, versão mais antiga, seis séculos antes de Cristo, do pontapé na bola; os italianos podem insistir em chamá-lo de cálcio, em homenagem ao desporto medieval praticado em Florença; e os ingleses podem gabar-se de ter criado o football association, a forma do jogo que conhecemos hoje, num pub londrino. Mas foi um brasileiro que naquele junho de 1938 em Estrasburgo divulgou ao mundo o futebol na sua versão arte – um estilo de futebol jogado ao ritmo do maxixe, da batucada, da modinha, do choro, os pais do samba, e que viria a impor-se ao mundo nas décadas seguintes.

Um brasileiro nascido e criado no Rio de Janeiro, onde o futebol, se não nasceu, pelo menos renasceu. Porque no Rio, então capital e mais populosa cidade do Brasil, o futebol já era uma arte, interpretada por milhares de moleques anónimos nas esquinas das favelas, em campos inclinados morro acima e morro abaixo, nas areias de Copacabana. Leónidas era apenas o melhor de todos eles. E o primeiro de uma dinastia de génios cariocas, de Garrincha a Zico, de Zizinho a Romário, de Didi a Ronaldo Fenómeno.

Nos anos 1930, a estrela do futebol carioca foi Leónidas. Campeão estadual pelo Botafogo, Vasco da Gama e Flamengo. Num jogo pela seleção brasileira, em 1938, um jornalista do Paris Match, chamou-lhe Diamante Negro. (DR)

A história de Leónidas confunde-se também com a história dos principais clubes do Rio:
ele começou no São Cristóvão, passou pelo Sírio Libanês e pelo Bonsucesso antes de ser campeão estadual por três dos pilares eternos do futebol carioca – o Vasco da Gama, o Flamengo e o Botafogo – mesmo torcendo em criança pelo único pilar pelo qual não jogou – o Fluminense. E se o Mengão é hoje um fenómeno de popularidade Brasil afora – e desde Jorge Jesus em Portugal também -, é-o, em certa medida, por obra e graça de Leónidas da Silva.

Em 1936, o até então clube da elite carioca, ao lado do Fluminense, contratou de uma só vez os três craques negros do momento, uma política naqueles dias circunscrita ao inclusivo Vasco da Gama, a menina dos olhos da orgulhosa comunidade portuguesa do Rio. Além de Leónidas, sempre impecavelmente vestido mas com expressão de bad boy no rosto, também chegaram Fausto, a Maravilha Negra, e Domingos da Guia, o Divino Mestre.

Clube do “povão”

Paralelamente, o Brasil deixava-se subjugar naqueles dias ao poder da rádio. E como o Rio era a capital, os relatos dos jogos dos clubes locais foram difundidos por todo o país e Vasco, Flu, Botafogo e sobretudo Fla, agora encarnando, como nenhum outro, o papel de clube do “povão” negro e mestiço, propagaram-se, nas ondas da rádio, por regiões tão longínquas como o norte e o nordeste. Os rivais paulistas, pelo contrário, tiveram de esperar pelo poder mediático seguinte, o da televisão, para se expandir.

Há entre os quatro grandes paulistas e os quatro grandes cariocas, entretanto, uma relação quase de reflexo uns nos outros e que explica a organização das maiores cidades do Brasil. O Vascão, segunda maior torcida carioca atrás apenas do arquirrival Fla, é a expressão da portugalidade, a construção da maior comunidade imigrante do Rio, como o Palmeiras, cujo nome original era Palestra Itália, é a tradução da maior comunidade imigrante de São Paulo, a italiana.

Botafogo, no Rio, e Santos, em São Paulo, são, por sua vez, produtos de uma geração – o clube de Garrincha e o clube de Pelé, apesar de terem um apelo popular mais reduzido, seduziram legiões de fãs encantadas com a época áurea dos seus clubes, nos anos 1940, 50 e 60, anos a preto e branco, como os equipamentos de ambos.

Na década de 1950 Didi, no Fluminense, o primeiro jogador a marcar um golo no estádio do Maracanâ

O Flu, que não teve aquele rasgo de contratar três negros e encarnar o papel de clube do povo como o irmão Fla, manteve-se mais restrito a uma certa elite intelectual e cultural da zona sul carioca, ou não fosse o clube do coração de Chico Buarque, de Jô Soares, de Nelson Rodrigues. Na hoje maior metrópole do Brasil, o São Paulo FC assume esse papel de principal representante dos Jardins e dos outros bairros nobres da sua cidade.

E da mesma forma que há o Fla no Rio de Janeiro, em São Paulo há o Corinthians, os dois, respetivamente, com 40 e 35 milhões de loucos apaixonados, e que a cada triunfo histórico cantam nos seus estádios “favelaaaa, hoje tem festa na favelaaaa”. Nem um nem outro são a elite, nem um nem outro são produto de uma geração, nem um nem outro são fruto da paixão de comunidades imigrantes. Eles não são nada. E, por isso, são tudo. São o resto, um enorme resto. São, sobretudo, clubes brasileiros.

Roberto Dinamite, do Vasco da Gama, que ainda hoje detém o recorde de golos no campeonato brasileiro (D. R.)

Mas, como todos os grandes clubes de todo o mundo, os quatro gigantes do Rio cresceram também por causa dos seus maiores ídolos. No Vasco, Ademir Menezes, o primeiro exemplo do que depois se convencionou chamar de ponta-de-lança, e Roberto Dinamite, jogador com mais jogos e golos pelo clube e ainda o maior goleador da história do Brasileirão, mais tarde eleito presidente cruz-maltino.

No Botafogo, depois do mitológico Heleno de Freitas, cuja vida de playboy inspirou livros e filmes, nasceu Nilton Santos, “a enciclopédia do futebol”, e Mané Garrincha, “a alegria do povo”, que, mesmo com estrabismo, deformação na espinha, seis centímetros de diferença entre as pernas, cujos joelhos batiam um no outro, entrou na história do futebol mundial como génio do drible. E, mais tarde, Jairzinho, o furacão da seleção brasileira do Mundial de 1970, talvez o ápice do futebol arte.

Mané Garrincha o ídolo da equipa do Botafogo e que por lá jogou entre 1953 e 1965. (D.R)

No Fluminense cresceu Didi, o inventor da folha seca, a forma ainda hoje mais comum de se marcar um livre, autor do primeiro golo da história do Maracanã. E encerrou a carreira Rivellino, o artista paulistano que celebrizou a finta do elástico.

No Flamengo, um cansado Leónidas cederia um dia a coroa a Zizinho, nada menos do que o ídolo do rei Pelé. E depois, nos anos 1970, surgiu Zico, o genial filho de um casal de portugueses que não torcia, como a maioria dos compatriotas, pelo Vasco mas sim pelo rubro-negro. Pelo mão dele – ou pelo pé direito dele – em 1981 o Urubu conquistaria a América do Sul, vencendo a Taça Libertadores, e o mundo, derrotando na final da Taça Intercontinental o Liverpool, quem sabe o seu rival, outra vez, no próximo Mundial de Clubes da FIFA.

Romário, torcedor do América, a quinta equipa do Rio de Janeiro, formou-se no Vasco da Gama e jogou no Flamengo e Fluminense. (Getty images)

Ainda há, claro, o génio indolente Romário, torcedor do América, o quinto clube da cidade, mas formado no Vasco e com passagem pela dupla Fla-Flu, ou o fenomenal Ronaldo, que, mesmo sem ter jogado profissionalmente no Rio, foi nas esquinas das favelas, em campos inclinados morro acima e morro abaixo e nas areias de Copacabana que aprendeu a arte.

Sem falar nos adotados: Pelé, nascido em Três Corações (Minas Gerais), criado em Bauru (São Paulo), beatificado no Santos e santificado na seleção, só se sentia no céu quando jogava no olimpo do futebol, o carioquíssimo Maracanã. Ou Ronaldinho Gaúcho, um porto-alegrense que no fim da carreira, ao serviço de Fla e de Flu, quis demonstrar a arte do seu futebol na capital do futebol arte, ao ritmo da bossa-nova, do pagode, do funk carioca, os filhos do samba.

Naquele Brasil-Polónia de 1938, Leónidas, apesar da má vontade do árbitro, que se recusou a deixa-lo jogar descalço e ainda marcou falta, não se sabe muito bem porquê, no lance do pontapé de bicicleta, marcaria três golos na vitória por 6-5 dos sul-americanos. O jornalista do Paris Match, boquiaberto com o que acabara de ver, alcunhou-o de Diamante Negro. E assim nascia, ou, pelo menos, renascia o futebol.

DE PIPI A JJ. OS PORTUGUESES NO FUTEBOL DO RIO

O português José Dominguez jogou no Vasco da Gama em 2005, onde terminou a carreira. (Arquivo Global Imagens)

Já ídolo do Benfica, pelo qual havia ganho duas vezes a I Liga e três vezes a Taça de Portugal, Rogério Lantres de Carvalho, o elegantíssimo Pipi, aterrou no Rio de Janeiro para representar o Botafogo, que, para conquistar a comunidade portuguesa local, muito ligada ao Vasco da Gama, lhe propusera contrato milionário. Era a época, no entanto, do genial e perturbado Heleno de Freitas no alvinegro e a quem lá chegasse, como Rogério, estava reservado o papel de ator secundário.

E, assim, o primeiro grande ídolo português a rumar ao Brasil voltaria, sem triunfar, a Lisboa para o seu Benfica. Primeiro grande ídolo português não: em 1916, o vencedor do título de melhor jogador do Vasco, hoje já com 103 edições, foi Adão António, um penafidelense das escolas do FC Porto que se tornaria carioca e vascaíno de coração. É dele também o golo inaugural da história do Gigante da Colina. Três anos após a aventura de Rogério, foi a vez de outra lenda, Cândido de Oliveira, jogador do Benfica e treinador de Sporting, Belenenses, FC Porto e seleção portuguesa, além de fundador do jornal A Bola, treinar o Flamengo, 69 anos antes de Jorge Jesus.

Fernando Peres, estrela do Sporting dos anos 1960 e 70, chegou em 1974 ao Vasco para ser campeão brasileiro ao lado de Roberto Dinamite – atuaria ainda pelo Sport Recife e pelo Treze, da Paraíba, nos anosseguintes.

Falecido neste ano, Peres, apesar de ter feito parte da seleção portuguesa de 1966 que bateu o Brasil no Mundial de Inglaterra por 3-1, queixava-se de um certo preconceito contra os futebolistas portugueses – espalhou-se a piada de que jogavam de tamancos.

Décadas mais tarde, o irrequieto José Dominguez (na foto em cima), fustigado por lesões, terminou a carreira também no Vasco, em 2005. Dois anos antes, o defesa Paulo Madeira nem chegou a jogar pelo Fluminense. Jorge Jesus, ao transformar o Flamengo, é de longe o português mais bem-sucedido no Rio.