Feitoria Inglesa. Raízes, memória e coração.

Já foi aqui que o negócio do vinho do Porto teve o principal cenário. Hoje é elemento vivo de memória e espaço de partilha dos happy few que continuam a frequentá-lo, à boa maneira inglesa, no velho edifício da Rua Infante D. Henrique, no Porto. Charles Symington, provador e diretor de enologia da Symington Family Estates, é o tesoureiro atualmente oficiante, o que no léxico nacional quer dizer presidente. O crítico de comida e vinhos Fernando Melo* escreve sobre esse bastião de tradição que é a Feitoria Inglesa.

Há uma forma muito britânica de ser, que apesar de ser impossível exprimir em poucas palavras vou resumir como nunca reclamar estatuto nem fazer-se valer de um título para ter qualquer espécie de vantagem, e assumir o coletivo acima do individual. Não é fácil entender bem o alcance destas palavras, necessariamente imperfeitas, quando nós, portugueses, conhecemos melhor o poder do que o charme nos cargos públicos.

A melhor forma de perceber o funcionamento da Feitoria Inglesa – estabelecida em 1727 e instalada em 1790 no edifício que conhecemos, na Rua Infante D. Henrique, no Porto – é hoje vê-la justamente pelo que tem de simbólico e de carga histórica. Começa pelo cargo de direção, que aqui recebe o nome de tesoureiro, herança clara dos tempos do comércio intenso de vinho do Porto – e não só -, quando acontecia aqui, no resguardo dos olhares e dos ouvidos de todos.

Estende-se à copiosa cave de vinhos do Porto que os mais de cem anos de atividade foram consolidando e que em momentos especiais vê subtraídos alguns néctares mas que logo repõe com valores vínicos de excelência.

O espírito e a fleuma britânicos são um modo de vida, incrustado no coração de cada um, e o pensamento é de longo prazo.

Adivinha-se na cozinha velha, instalada no último piso deste edifício-fortaleza, onde ainda estão os utensílios e as alfaias de outrora, impecavelmente conservados e que, em circunstâncias especiais, pode visitar-se. Percebe-se na fantástica biblioteca de que dispõe, com alguns exemplares valiosos, como primeiras edições, livros autografados e compêndios importantes para perceber o vinho do Porto e o Douro. E experimenta-se, em dias felizes, a beleza e a harmonia do momento inesquecível que é ser convidado para um jantar formal na Feitoria. Há registo de todos os que aconteceram e de quem estava sentado onde – e quando chega a altura de saudar a rainha, estamos já a uma mesa de configuração igual à do jantar, um gesto venerável que faz de nós veneráveis também. De tudo isto e de vários outros aspetos está o tesoureiro encarregado de coordenar com a gravidade e a alegria que se impõem. A mesma alegria que se deseja, com vida longa, à rainha.

O espírito e a fleuma britânicos são um modo de vida, incrustado no coração de cada um, e o pensamento é de longo prazo.

A Feitoria Inglesa tem hoje uma função eminentemente simbólica, menos operativa e estratégica do que nos seus tempos áureos, em que tecidos, lãs, bacalhau e tantos outros produtos eram ali negociados. Está além disso centrada exclusivamente no vinho do Porto, e mesmo este de uma forma não executiva, apenas representativa. Mesmo assim, é como manter a chama viva da memória, até para nós, portugueses, que não temos acesso nem vivemos a cultura britânica no nosso quotidiano.

De resto, sabemos que as designações de vinho do Porto, ainda confusas para a maioria dos consumidores, surgem em inglês nos rótulos: vintage, tawny, late-bottled vintage, etc. Marcam o ritmo os rituais da Feitoria, especialmente os almoços das quartas-feiras, em que informalmente os associados convivem livremente e vão comentando os assuntos que os ligam. O Brexit há de ser seguramente um dos mais partilhados, nunca saberemos ao certo, porque não se lavra ata nem regista qualquer discurso. Na terceira ou na quarta sexta-feira de novembro acontece o “jantar do tesoureiro”, há um convidado especial para fazer uma espécie de oração de sapiência e é normalmente uma figura pública, havendo ainda lugar à prova de vintages, a categoria suprema de vinho do Porto, seleção a cargo do tesoureiro, a partir do imenso espólio que repousa na garrafeira. A noite do último sábado antes do Natal reúne mais de cem pessoas, entre membros associados e amigos, e é uma noite longa, tradicionalmente terminando com… o pequeno-almoço na manhã do dia seguinte.

Apesar disso, Charles Symington vive com uma paixão inexcedível o seu trabalho, os vinhos que produz e o património vitícola de que dispõe. O mesmo é dizer, numa só palavra, a família.

Charles Symington é a um tempo reservado e profundamente realizado na sua já considerável vida de enólogo, de resto os quase 25 anos de carreira demonstram-no vastamente. Charles é filho de Peter Symington, que desempenhava as mesmas funções e agora está reformado. Provador exímio, tive eu próprio experiências avassaladoras com Peter, em quem se pressentia a felicidade de quem está no posto certo e vive intensa e diariamente a sua especialidade. Afabilidade extrema, ameaçada por vezes e só quando encontrava algum copo que não estava correto, ou quando tinha havido troca de amostras. Todos os vinhos eram marcos biográficos, e por isso mesmo eram todos inconfundíveis. Charles é igualmente virtuoso, há de facto muito de genético na atividade de provador de uma casa de vinho do Porto e o Douro inteiro sabe-o bem; não há grande casa que não tenha o seu provador. Juntar a essa atividade a da enologia, ou seja a construção e definição de lotes a partir de uvas e vinhos que provêm literalmente de todo o grande vale do Douro, para mais com o imperativo de manter estilos e perfis, é tarefa colossal, de enorme responsabilidade.

Apesar disso, Charles Symington vive com uma paixão inexcedível o seu trabalho, os vinhos que produz e o património vitícola de que dispõe. O mesmo é dizer, numa só palavra, a família.

Os Symington são de origem escocesa, mantêm ligações fortes com Inglaterra e todos são donos pelo menos de uma vinha em Portugal. A fórmula é de enorme complexidade mas reduzida à forma simples, quer dizer que vieram para ficar e criar raízes. A língua que utilizam no contacto com todos é o português, sem necessidade de guias-intérpretes, os contratos de compra de uvas com cada lavrador são firmados com um aperto de mão e religiosamente cumpridos e o preço pago é sempre compensador para quem vende, muitas vezes excedendo os valores que o mercado no geral está a praticar. O funcionamento da família como clã não vem só dos genes escoceses, é assim desde sempre, muita da sua força provém desse sentimento do coletivo que dilui o individual.

A discrição é a palavra de ordem, e os cerca de mil hectares de vinha de que são proprietários no vale do Douro jamais é assunto de pressão ou publicidade. As 27 propriedades que em conjunto detêm totalizam 2500 hectares de terra, o que faz da família a maior proprietária do Douro, the mighty Symington.

O tesoureiro da Feitoria Inglesa em exercício não tem muito tempo livre e o que tem passa com a família, pacatamente, entre o Porto e o Douro. Charles Symington é um homem de consensos, maduro e firme nas suas decisões. Já não estamos no tempo da guerra, pelo que o aquartelamento não é mais necessário, a paz permite viver os momentos um a um sem pressas nem frémitos exagerados. O cargo de tesoureiro é rotativo, vai calhando anualmente a cada uma das oito casas associadas da Feitoria a nomeação, e assim vai continuando vivo, matizado com as cores da diversidade, o gigantesco património do vinho do Porto. A Charles é a segunda vez que é atribuído, e aí está oficiante no seu posto, secundado por Olga Lacerda, secretária da Feitoria Inglesa ao mesmo tempo detentora, por assim dizer, dos meios de articulação eficaz com todos os membros, sempre leal ao tesoureiro. Contraria a tese errada de que se trata de uma instituição machista na qual apenas homens têm assento. É aliás graças à sua personalidade e estilo que se consegue uma energia unificadora e galvanizadora, levando a que haja o sentimento do coletivo que caracteriza a forma britânica de ser.

A Feitoria pode visitar-se mediante marcação e é possível fazer eventos desde que dentro dos cânones e costumes da secular casa.

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* Fernando Melo é crítico de vinhos e comida na revista Evasões. Engenheiro físico pelo IST, dedica-se há trinta anos ao estudo das raízes e do património gastronómicos do país, percorrendo ao pormenor o território, nas suas mesas, vinhas e adegas. Dá formação de enogastronomia nas escolas de hotelaria nacionais.


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