[Vídeo] Especiais de corrida – carrinhas topo de gama para cavalos

Os cavalos de competição não estagiam em hotéis de cinco estrelas
mas viajam em carros pensados para eles. Muitos desses exclusivos horsetrucks, vendidos para o mundo inteiro, são portugueses e saem da fábrica da Atlantic Masters, no Cartaxo.

Texto de Marina Almeida

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Foi Luís Rato quem idealizou a Atlantic Masters – AT.M Horsetrucks. Não pertencia ao mundo de cavalos, cavaleiros e campeões olímpicos, mas não foi por isso que deixou de aplicar a sua história pessoal no desenvolvimento de um produto de elite. Superou-se em exigentes corridas de trail, como atleta da Salomon. Começou no desporto de aventura há 20 anos, ainda não era moda («ninguém saía para fazer 10/15 horas de corrida»). Aplica o mesmo desafio aos negócios: está sempre à procura do novo Evereste. Do novo limite.

A música ritmada sai de uma coluna na parede, aqui e ali abafada com a azáfama dos trabalhadores que, nas várias fases do processo de fabrico, cortam, serram, lixam, unem as peças que dão forma aos veículos. Foi tudo estudado ao detalhe. «Quando eu pensei neste projeto, em finais de 2009, a ideia foi criar um carro que pudesse ser o melhor do mundo», diz o gestor de marca e sócio da empresa (com Pedro Escudeiro). Não tem medo das palavras. Acredita que este é, de facto, o melhor carro de transporte de cavalos do mundo: um troféu imaginário, feito de detalhes. Como uma inovação «simples», para evitar o stress dos animais com as travagens durante as viagens. «Pusemos uma quarta luz de stop no interior, uma coisa tão simples que cria um efeito antistress, prepara-os para evitar lesões». Quando o condutor trava, os animais veem a luz vermelha instalada no interior. «Fomos buscar o reflexo condicionado de Pavlov. Ao final da primeira viagem os animais conseguem perceber [a relação causa-efeito]. Estudámos, observámos o comportamento através de câmaras e percebemos que a reação deles passa a ser muito mais tranquila. Às primeiras travagens o animal demonstra uma reação de desconforto. Depois muda. A postura do animal dentro do carro altera-se por completo. São cavalos de competição, devem viajar o mais tranquilos possível», defende o empresário.

«Não temos uma aresta viva e o nosso controlo de qualidade passa pela mão.»

Estamos no interior de uma das carrinhas (modelo Havas, com capacidade para transportar dois animais) e, apesar do calor da hora de almoço, há frescura no habitáculo, mesmo com as portas abertas. «Utilizamos desde os melhores alumínios, que compramos à Sapa, isolamento térmico, pele, pele sintética. No piso, temos três camadas de materiais, todas extremamente leves e ortopédicas. Temos de ter estruturas que não deformem e não criem desníveis de maneira a não provocar lesões nos cavalos», diz Luís Rato. Os perfis e os alumínios são feitos para a marca e os chassis são alterados para reduzir ao máximo as vibrações. «Temos uma homologação europeia. Um carro nosso em Renault e Fiat é homologado, no livrete vem com a nossa marca.» Prossegue a torrente de entusiasmo, aponta as zonas almofadadas no teto, e revela o peculiar acabamento dos interiores das carrinhas: «Não temos uma aresta viva e o nosso controlo de qualidade passa pela mão.» Faz uma pausa. Sabe que não é comum aquilo que diz. Prossegue: «Muitas das vezes ferimo-nos nós aqui… mas não se fere o cavalo.»

DE MONTANHA EM MONTANHA
O cavalo está acima de tudo, acede o empresário nascido em Santarém há 47 anos, desde cedo com a paixão pelas marcas. «Aquilo que eu gosto é de criar empresas. Fiquei sem pai aos 12 anos, a minha mãe era funcionária pública, sou filho único. Tenho o ensino secundário. O meu primeiro trabalho, aos 18 anos, com um amigo, foi comprar e vender cenouras no mercado abastecedor.»

«Aquilo que eu gosto é de criar empresas»

Enumera as escalas seguintes de um percurso que o coloca à frente da AT.M Horsetrucks: passou pela área das telecomunicações, em 1993, pelos ginásios, em 1997, foi jovem empresário em 2003, recebeu um prémio de empreendedorismo. Da fábrica do Cartaxo saem também coloridas food trucks – uma outra área de negócio, em grande expansão. Em todo este caminho, o desporto. «Venho do desporto», repete aqui e ali ao longo da conversa. É o seu mantra. «Fazia corridas de aventura pela Salomon. Tenho dez horas aos 101 quilómetros em montanha, além de fazer escalada, caiaque…» A AT.M Horsetrucks produz os camiões numa unidade na Hungria. São «grandes apartamentos com espaço para levar seis a oito cavalos.» Estes custam mais de meio milhão de euros e, por ano, vendem «dez a quinze». Já as carrinhas, custam a partir de quarenta mil euros (mais IVA). Em quatro anos, a Verso Move (assim se chama a fábrica) já produziu meio milhar e Luís Rato garante que os quarenta funcionários não têm mãos a medir. A empresa começou com quinhentos euros e atualmente tem um volume de negócios que ascende aos doze milhões, entre Portugal e a Bélgica, onde tem sede.

A maior parte dos clientes (95 por cento) está no estrangeiro. Os principais mercados são a Bélgica, Holanda, Alemanha, França e Espanha. «Em Espanha somos muito fortes, equipamos praticamente todos os cavaleiros olímpicos espanhóis. Quer os da parte de ensino (dressage) quer os da parte de saltos levam os nosso carros», revela. «Entre os vinte melhores do mundo, se calhar temos seis ou sete clientes que são nossos. Sérgio Moya, é um dos nossos embaixadores, o [ex] marido da Marta Ortega é um cavaleiro que nos representa em todo o lado do mundo.

O dono da Lego tem póneis para os netos, e pediu um carro adaptado aos póneis

Ele faz o circuito mundial, acaba por ser o nosso embaixador principal», com um carro personalizado da Massimo Dutti. Aquilo que distingue o carro português é a personalização, com 160 modelos diferentes, graças às várias opções disponíveis. «Um dos nossos clientes é a família Lego. O dono da Lego tem póneis para os netos, e pediu um carro adaptado aos póneis. Temos um cliente alemão que troca de carro todos os anos. Ele para além dos cavalos, tem de ter conforto para a cadela. E como tem uma coleção de Ferraris, quer sempre a carrinha estofada igual ao último modelo de Ferrari que tem…»

Luís Rato está sentado no gabinete. Atrás de si a parede diz: Where is the Limit? Não há limite, claro. «No desporto o limite é subir o Evereste. Depois ou se desce ou se morre. Eu tenho de perceber que se algum dia subir o Evereste, depois vou subir mais dez montanhas a seguir.» E nas carrinhas? «Quero fazer algo hi-tech para o meio dos cavalos, com monitorização do cavalo e do cavaleiro em tempo real, para podermos avaliar o comportamento e a performance. É um projeto em desenvolvimento há dois anos. Estamos a trabalhar com os maiores craques desta área a nível mundial.»

Reportagem publicada na DN Ócio nº1