Ourém: a casa prefabricada de sonho que nasceu do desenho de uma criança

Tudo começou com o desenho de uma criança. Quantas vezes não desenhou, quando era pequeno, a casa dos seus sonhos? Quantas vezes, os seus filhos não o fazem, imitando, de forma simplista, a imagem que têm do vosso lar?

Texto Patrícia Tadeia | Fotografias João Morgado

Foi assim que nasceu a ideia para esta Casa em Ourém, localizada, mais propriamente, na Melroeira. O arquiteto Filipe Saraiva transpôs para a escala real a casa que tantas vezes já foi alvo de lápis de cor. Só que a esta acrescem painéis pré-fabricados, um jardim, ou uma garagem para quatro carros (Filipe é um apaixonado por carros), entre eles um Porsche 911 Carrera S, como confirmou o arquiteto ao DN Ócio. No interior, que é muitas vezes esquecido aquando dos desenhos dos mais pequenos, uma mezzanine que guarda um escritório e uma biblioteca. Tudo pautado por uma decoração sofisticada.

«Quando pedimos a uma criança, em qualquer parte do mundo, que desenhe uma casa, invariavelmente todas nos apresentam uma representação simplista formada por cinco linhas, um retângulo e dois quadrados. O pentágono composto pelas cinco linhas, representa as paredes e a cobertura. O retângulo pretende representar a porta e os quadrados, as janelas», defende Filipe Saraiva.

Já lá vão oito anos desde que a ideia começou a ganhar forma. Para Filipe era a solução ideal para dar um fim aos materiais produzidos na fábrica da sua família, a Vigobloco – pré-fabricados, S.A. Quando encontrou o terreno perfeito (por aproximadamente 60 mil euros), pôs as mãos à obra – ou ao desenho – e construiu a sua própria casa.

«Quando pedimos a uma criança, em qualquer parte do mundo, para desenhar uma casa, todas elas, sem exceção, apresentam uma representação simplista»

«O projeto consiste numa casa de mim, para mim e para a minha família e pretende ir ao encontro das nossas necessidades funcionais, mas também satisfazer um leque de requisitos arquitetónicos que fazem parte do meu imaginário formal e espacial, resultantes da minha vivência individual e em família», diz ainda Filipe Saraiva.

Foram seis meses de construção para edificar a casa onde vive com a mulher e os dois filhos. É lá que vivem desde o fim de 2016. Dois andares, 410 metros quadrados, três quartos, quatro casas de banho e um piso térreo com duplo pé-direito na zona de estar. É assim a casa que tem vista privilegiada para o Castelo de Ourém.

«O método construtivo adotado consiste na utilização de painéis pré-fabricados em betão preto», acrescenta Filipe Saraiva, dizendo ainda que a «utilização do betão preto enquanto material pretende uma integração sóbria e em sintonia com a paisagem, bem como reduzir os custos de manutenção.»

Mas quanto já se gastou neste «lar, doce lar»? Aproximadamente 700 mil euros. O chão é de betão cinzento. Na cozinha, além dos eletrodomésticos, há um balcão de mármore italiano Carrara, com painéis de nogueira. Na sala, elementos de decoração «a cargo» do designer italiano Achille Castiglioni, do francês Jean Prouvé, o sofá de couro preto da Le Corbusier, e as cadeiras dos norte-americanos Charles and Ray Eames, avança um artigo do Wall Street Journal sobre a casa.

«O projeto consiste numa casa de mim, para mim e para a minha família e pretende ir ao encontro das nossas necessidades funcionais»

A Casa em Ourém já correu mundo e esteve nomeada para o prémio «Building of the Year 2018», promovido pelo site de arquitetura internacional ArchDaily. Mas o ateliê de Filipe Saraiva não para. Quanto a próximos projetos, o arquiteto de 45 anos pondera agora recuperar uma habitação antiga num terreno junto à casa, num projeto que pode custar 75 mil euros, lê-se no Wall Street Journal.

Reportagem publicada originalmente em julho de 2018.