Diane von Furstenberg: «Tenho 71, mas deveria ter 140 pelo tanto que já vivi.»

Como a designer de moda está a vender confiança às mulheres e a aceitar a idade. A estilista do icónico vestido-envelope, Diane von Furstenberg, fala de poder, de dinheiro e de conseguir o que se quer.

Por Anna Murphy/The Times*

Diane von Furstenberg está a recordar como a sua mãe, uma sobrevivente de Auschwitz, a fechava num armário quando era pequena. «Ela dizia que o medo não era uma opção. Fechava-me lá para que eu não tivesse medo do escuro.» Por quanto tempo? «Cerca de dez minutos», continua, confiante.

«E a verdade é que estou contente por tê-lo feito. Em primeiro lugar, não fica escuro. Em segundo, de que é que se tem medo? É só escuro. Foi o melhor presente que a minha mãe me deu.»

É difícil imaginar que esta belga de 71 anos, que encarna o sonho americano, tenha alguma vez sentido medo de alguém ou de alguma coisa. A sua autobiografia tem o título The Woman I Wanted to Be – A Mulher Que Eu Queria Ser. E quando é que se tornou essa mulher, pergunto-lhe. «Nos meus 20 anos». Claro. «Sabia que queria ser uma mulher com poder.»

Diane von Furstenberg está estirada, à minha frente, no sofá da sua suite em Claridge, Londres, como um enorme gato, olhos bem abertos e lânguida, deitando ocasionalmente as garras a duas metades de uma romã. Ela é, nota Nathan Jenden – o novo diretor de design da sua marca, sentado ali bem perto –, «muito felina». E é mesmo. Uma espécie de mulher-leopardo. Os seus movimentos são tão suavemente ferozes que ninguém suspeita que ela tem esferas de rolamentos em vez de articulações.

O pescoço e o pulso de Von Furstenberg estão salpicados por enormes diamantes e safiras, como olhos maldosos. Por que razão os usa? «Para proteção. Toda a gente precisa de proteção.» Não tenho assim tanta certeza.

Construiu a sua marca com base num diferente tipo de talismã, o vestido-envelope. «Depressa percebi que estava a vender confiança», é como o apresenta. Lançou a criação em 1974, um improvável híbrido entre o top de uma bailarina e uma saia a condizer, naquilo que foi, à altura, uma camisola que mudou as regras do jogo. Aquilo a que se refere algumas vezes como «apenas um pequeno vestido estúpido» e – de forma mais correta – «um ícone» aterrou dois anos depois na capa da Newsweek. A revista declarou-a «a mulher mais vendável desde Coco Chanel». Nessa época, Diana fazia quinze mil dólares por semana.

«A grande cena era a confeção, que moldava o corpo numa altura em que tudo o resto era rígido. E as impressões tinham movimento. Era uma atitude, num tempo de libertação das mulheres. As pessoas sentiam-se felinas.» Sentiam-se como ela, por outras palavras. Von Furstenberg é o seu vestido.

O vestido é ela. E isto apesar de – defende a própria – «mesmo quando tinha 33 anos ter pensado, por alguma razão, que me deveria afastar da marca».

Tant pis [tanto pior] – o francês é uma das suas cinco línguas. Para os clientes de DVF, ela está indissociavelmente entrelaçada na teia e na trama. Porquê? Porque se tornou uma mulher trabalhadora altamente visível e bem-sucedida quando não havia muitas. Porque apareceu fotografada na controlada imprensa, de forma profissional (sentada na borda de uma secretária) e sexual (deitada numa cama). Ela juntou sexo e cidade muito antes de qualquer série de televisão aparecer. E ainda se destaca, mesmo quando ser uma mulher com poder já não é uma anormalidade.

Para as suas clientes, usar os seus vestidos era – é – uma forma de ser mais Diane von Furstenberg, mais destemida. É também uma forma de trabalhar a feminilidade de cada pessoa, as suas curvas, até ao degrau certo no escritório. «Quando se trabalha, queremos parecer bem, parecer fortes», diz. «Queremos mostrar o nosso corpo – porque não? –, mas não de uma forma que faça os homens verem-nos como objetos.»

O seu vestido-envelope não é apenas uma solução prática para o problema de escolher o que vestir de manhã – «esta marca é sobre soluções» –, é também o último dois-em-um. «Alguém um dia disse-me algo que me pareceu perfeito: “Com este vestido seduzes o tipo e a mãe dele não se importa.”» Tudo poderia ter sido muito diferente para Von Furstenberg. Para começar, não era de forma alguma inevitável que a aluna do colégio interno suíço fosse acabar a trabalhar para um fabricante em Itália, apesar de ser um que fornecia marcas como a Gucci. «Quando somos novas temos todas as portas à nossa frente, certo? E esta não era, com certeza, a porta com mais glamour

Foi ainda menos inevitável quando ficou grávida de Egon von Furstenberg – «ele era o partido perfeito, rico, príncipe, tudo isso… foi para a América e todas as raparigas queriam casar-se com ele» – e ela lhe respondeu que queria ter a criança e tratar de tudo sozinha. «A ideia de engravidar de alguém que era tão bom partido dava a entender que o tinha feito de propósito», diz Diane. «Não queria que fosse assim. Entende?»

Então, sim, ela disse que se casava com ele, apesar da inicial transgressão. «No início disse à minha mãe: “Não quero fazer isto.” Ela disse-me: «Ele pediu-te em casamento, por isso o mínimo que podes fazer é deixá-lo fazer parte da decisão.” Foi então que lhe enviei um telegrama. E ele respondeu com outro. Combinámos um casamento para Paris em meados de julho».

E, sim, ela concordou em mudar-se para os EUA para ficar com ele. Mas viajou com as amostras de camisolas que tinha encomendado da fábrica no lago de Como. «Não havia qualquer razão para que eu trabalhasse», diz. «Só pensava que poderia fazer algumas roupas que depois venderia. Não pensava que teria uma marca.» Mas tiveram, ou melhor, ela teve. «A primeira independência é a financeira. É por isso que digo a todas as mulheres que devem mesmo trabalhar e ter uma identidade fora de casa, senão é terrível.»

Em 1990, escreveu na sua biografia: «Estava bastante perdida. O meu negócio, o que sobrava dele, estava em pedaços.» Apesar disso, a sua mãe um dia afirmou, quando lhe explicava como tinha sobrevivido ao campo de concentração: «É como a chuva. Passas entre os pingos.»

No início, Egon «apoiava bastante a ideia de eu trabalhar». E na realidade? «À medida que me tornei mais e mais bem-sucedida…» Tiveram duas crianças juntos, mas o casamento acabou mais ou menos na altura em que a marca DVF se tornou explosiva. Von Furstenberg encontrou consolo num elenco de amantes que incluiu Ryan O’Neal (ator) e o homem que acabaria por se tornar o seu segundo marido, o empresário de Hollywood Barry Diller.

Tem havido mais obstáculos no caminho desde esse tempo, a nível pessoal e profissional. Uma luta contra o cancro. Um acidente a esquiar que quase destruiu aquelas maçãs do rosto que parecem de lince. Em 1990, escreveu na sua biografia: «Estava bastante perdida. O meu negócio, o que sobrava dele, estava em pedaços.» Apesar disso, a sua mãe um dia afirmou, quando lhe explicava como tinha sobrevivido ao campo de concentração: «É como a chuva. Passas entre os pingos.» Tem-se a clara impressão de que, como um gato, Diane von Furstenberg tem nove vidas e que irá sempre – sempre – aterrar nos seus pés imaculadamente calçados.

Nos anos mais recentes – auxiliada por uma parceria com a matchesfashion.com – reconstruiu a sua marca. «Reparei que uma nova geração de raparigas estavam a comprar os velhos vestidos em lojas vintage, e foi aí que pensei: “OK, como é que esta marca vai continuar?”»

Em 2016, contratou o designer britânico Jonathan Saunders para ser o seu principal criativo, mas essa relação terminou passado um ano. «O Jonathan é maravilhoso», diz. «Tem um espantoso sentido de impressão e de cor. Agora… não é que eu seja antimoda, mas há uma coisa que não sou de certeza: vítima da moda. Não posso ter mangas que sejam demasiado longas, percebe o que estou a dizer? No final, tem de ser funcional. Nunca vesti nada que fosse desconfortável.» Agora tem Jenden de volta à sua equipa, que trabalhou nos estúdios da DVF durante muitos anos. «Ele é um verdadeiro designer. Para fazer algo simples é preciso ainda mais design

Idade. Diane von Furstenberg afirma não se sentir incomodada com isso. «A idade significa que se viveu. Tenho 71, mas deveria ter 140 pelo tanto que já vivi.»

A existência de Von Furstenberg está muito longe das ruas. O único momento durante a nossa conversa em que fica sem palavras é quando lhe pergunto quão importante é o dinheiro para a pessoa que é. Uma longa pausa. «Nunca ninguém me fez essa pergunta.» Outra pausa. «Oiça, sou muito sortuda porque tenho uma vida maravilhosa. Duas coisas acontecem com o sucesso: pagas as tuas contas e tens uma voz.» Uma das suas iniciativas são os prémios DVF, que reconhecem «as mulheres dedicadas a transformar as vidas de outras mulheres».

Idade. Diane von Furstenberg afirma não se sentir incomodada com isso. «A idade significa que se viveu. Tenho 71, mas deveria ter 140 pelo tanto que já vivi.»

Von Furstenberg e o marido vivem vidas adequadamente fabulosas e de alguma forma meio desligadas. Em Nova Iorque têm casas separadas. Porquê? «Gosto assim. Mesmo em Los Angeles uso muitas vezes o quarto das visitas porque ele dorme com dois cães na cama.» Felizmente também há muito espaço para se esticar no superiate de Diller, Eos, do qual se diz ter uma escadaria de vidro e uma figura de proa de Mrs. Diller feito por Anh Duong, o modelo que se tornou artista.

«Temos uma relação formidável. Conheço-o há 44 anos. Foi meu amante, meu amigo e depois meu marido. O Barry adora que eu tenha sucesso. Mas eu sempre falei na ideia de ter uma mulher no comando. No Dia Internacional da Mulher imprimi algumas T-shirts que diziam “Mulher no Comando”. E ele não gosta quando eu a uso. O que é estranho, porque não tem nada que ver com ele.» É desnecessário dizer, mas ela usa-a na mesma.

*tradução por Ricardo Santos