Deixou o futebol para fazer relógios de diamantes na Suíça

Para Paulo, o futebol era uma paixão. Os mais atentos recordam-se dele. Fez a formação de verde e branco ao lado de Quaresma ou Hugo Viana. Depois do Sporting, passou pelo União da Madeira, Portimonense, Ovarense e Olivais e Moscavide, até, em 2007, seguir para o Vihren, da Bulgária. As saudades da família e alguns problemas de saúde fizeram-no desistir. Hoje é o ex-jogador de futebol que faz relógios de diamantes na Suíça.

Texto de Patrícia Tadeia

Paulo Teixeira nasceu em Mirandela. Desde cedo que começou a jogar à bola. Uma carreira que, quando se tornou uma realidade, exigiu muitos sacrifícios. A mudança para Lisboa levou-o até Alvalade, onde trocava bolas com Ricardo Quaresma, Carlos Martins, Custódio ou Beto.

A estreia pelos leões aconteceu nos iniciados, em 1994/95. Depois disso, chegou à seleção. Foi internacional nos vários escalões de formação. Tudo apontava para uma carreira promissora. Mas uma lesão quando integrava a seleção de sub-18 vinha atrasar o sucesso.

Jogou pela equipa B do Sporting, mas o médio queria mais. Chegou a trabalhar algumas vezes com o plantel principal. Mas a oportunidade nunca chegava. Acabou por ser emprestado ao Lourinhanense, ao Portimonense, e seguindo depois para União da Madeira, Ovarense e Olivais e Moscavide.

Aos 26 anos, surge a viagem para a Bulgária, onde jogou pelo Vihren, mas apenas durante seis meses. As saudades da família eram mais que muitas. Tinha deixado a mulher e o filho em Portugal. Então resolveu abandonar tudo, por uma promessa de um trabalho na Suíça.

«Um amigo meu que trabalhava numa empresa na Suíça que fazia relógios disse-me que fosse para lá. Que me ensinava a profissão. E assim foi», recorda Paulo Teixeira à DN Ócio.

«Tornei-me Sertisseur, é assim que se diz por cá. É o nome da profissão. É a pessoa que aplica os diamantes e as pedras preciosas nos relógios. É um trabalho de muita paciência», explica o ex-futebolista que há mais de dez anos não conhece outra profissão que não esta, de binóculo no olho ou lupa na mão. «É um trabalho muito detalhado, com diamantes, que se foca na decoração, e em que sigo um plano para cada peça», diz ainda.

«Um amigo meu que trabalhava numa empresa na Suíça que fazia relógios disse-me que fosse para lá. Que me ensinava a profissão. E assim foi»

«É verdade que o futebol sempre foi uma paixão, mas não me custou muito a mudança. Apaixonei-me pelo trabalho. Aprendi tudo naturalmente.» Paciência essa que também teve de todas as vezes que esteve longe da família. Hoje diz ser feliz.

A empresa em que trabalha, a Sercab SA, lida com peças de luxo, com relógios de marcas como a Rolex, Cartier, Bvlgari, Audermars Piguet ou Breguet. «Já tive peças de 10 mil a 400 mil euros nas mãos. São peças muito caras, mas nunca senti uma elevada responsabilidade. Pode acontecer um erro, claro, mas normalmente não acontece. É tudo por etapas», avança.

«Já tive peças de 10 mil a 400 mil euros nas mãos. São peças muito caras, mas nunca senti uma elevada responsabilidade»

Os tempos são outros, é verdade. Mas, se olharmos para alguns daqueles que, na formação, jogavam lado a lado com Paulo, vemos vários amantes de peças de luxo. Quaresma é um deles. «Não sou um amante do luxo, mas de peças. Mas tenho alguns ex-colegas que sim, são amantes de luxo. Há pouco tempo tive de fazer uma peça única que sei que era para um jogador português, mas não me quiseram dizer quem era, porque sabem do meu passado», diz.

Aos 37 anos, volta a Portugal apenas de férias, mas vai estando atento ao futebol português e ao clube do coração. «O [José] Peseiro está agora mais maduro do que quando passou pelo Sporting a primeira vez. Gosto da forma como as equipas dele jogam, é um bom futebol. Apesar de todos os problemas pelos quais o Sporting passou, penso que até poderá fazer uma boa época. Quando menos se espera é que as coisas acontecem», conclui. Assim foi também na vida de Paulo. Foi quando menos esperava, e onde menos esperava, que encontrou uma carreira, não no futebol, mas também uma carreira de milhões.