De D. Quixote a Picasso: os simbolos culturais que Espanha exportou para o mundo

De Dom Quixote ao flamenco, de Goya a Paco de Lucía, são muitos os símbolos culturais que a Espanha exportou para o mundo. Muito para além do postal ilustrado, fazem aquilo que os políticos não conseguem: unir entre si castelhanos, galegos, catalães e bascos.

Texto de Maria João Martins

“Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor. (…)”
Assim abre, como muitos recordarão, o romance Dom Quixote de la Mancha, dado à estampa em Madrid no ano de 1605 e ainda hoje considerado uma das traves-mestras do cânone literário mundial, o que decerto muito surpreenderia o seu autor, Miguel de Cervantes Saavedra, que, para sobreviver (tal como Camões), se fez soldado ao serviço do rei.

O brio de Dom Quixote, cavaleiro dito da triste figura, que, mesmo em extrema necessidade e míngua, nunca deixou de perseguir os seus ideais de justiça e supremo amor, tem, ao longo dos séculos, fascinado artistas de todo o mundo e das mais diversas disciplinas, estando para Espanha, enquanto símbolo identitário, como Amália Rodrigues para Portugal. Nacionalismos e regionalismos à parte, já que a boa alma do cavaleiro manchego parece ter tocado de igual forma artistas catalães, bascos ou castelhanos.

O catalão Salvador Dalí, foi, por exemplo, um dos maiores entusiastas mundiais da obra-prima de Cervantes, tendo assinado as ilustrações de uma das melhores edições de Dom Quixote, além de centenas de desenhos e pinturas nele inspiradas.

O que os liga, separando-os tanto a geografia e os tempos? Provavelmente a paixão, temperada pela fantasia, que une, nas suas diferenças, as várias nações da Península. Designada como “pele do touro” pelo geógrafo grego Estrabão no século I a.C., por lhe parecer, na contemplação dos mapas seus contemporâneos, que a Ibéria se assemelhava à pele estendida de um touro, este extremo ocidental da Europa ficou, aos olhos de si mesmo e dos outros, associado a indomáveis paixões. Eros e Thanatos simbolizados pelo touro selvagem, capaz de levar o mundo à sua frente.

A paixão é, se quisermos, a coluna vertebral da cultura espanhola. Está em Dom Quixote como, mais recentemente, na poesia e no teatro de Federico García Lorca. Nascido em Fuentevaqueros, Andaluzia, em 1898, o autor, que escreveria num dos seus poemas “só o mistério nos faz viver”, voltaria recorrentemente ao tema da morte violenta como desfecho da paixão e à tragédia como irmã gémea da fiesta. Fascinado pelo universo da tauromaquia, dedicará um dos seus mais conhecidos poemas à morte do toureiro (mas também dramaturgo e mecenas de artistas) Ignacio Sánchez Mejías, às cinco “en punto de la tarde” de um domingo de verão, na praça de Manzanares el Real.

Homossexual e republicano, também Lorca não tardaria a receber uma “cornada” fatal, mas das tropas franquistas, que o fuzilaram sem julgamento a 18 de agosto de 1936. Um pouco mais velho do que Lorca, outro andaluz de relevância mundial, Pablo Picasso (nasceu em Málaga em 1881), não só foi um fervoroso aficionado como nunca se cansou de pintar e desenhar temas relacionados com a tauromaquia. Provocador nato, o pintor gostava, no entanto, de desconstruir a mitologia machista cultivada nesse meio desde tempos imemoriais. Amigo íntimo do matador de touros, Luis Miguel Dominguín, Picasso provocou a sua ira quando, vendo no filho deste e seu afilhado, Miguel Bosé, uma sensibilidade artística latente, lhe ofereceu umas sapatilhas de ballett. Ofendido nas aspirações viris que tinha para o rapaz, Dominguín cortou relações com Picasso.

Terra de poucos meios-termos, Espanha vive, assim, entre a tragédia e a festa, a ordem política e religiosa e a sua subversão. Na monarquia catolicíssima dos Áustrias, sob a vigilância omnipresente da Inquisição, Francisco Zurbarán (1598-1664) fará das suas santas meninas coquettes, mais vestidas e penteadas para um encontro amoroso do que para receber uma epifania dos céus. Século e meio mais tarde, seria a vez de Goya pintar os seus mecenas – os reis da dinastia Bourbon – como uma gente feiíssima, mais visitada pela alucinação do que pela majestade. À sua visão verrinosa do mundo e dos homens poucos escapariam para além da XII.ª Duquesa de Alba, María del Pilar, por quem, reza a lenda, se terá apaixonado sem esperança.

Uma das descendentes de Pilar, a popular Cayetana de Alba (1928-2014), terceira mulher titular de uma das casas nobiliárquicas mais antigas da Europa (perante a qual, dizem os especialistas nestas coisas, a rainha de Inglaterra teria de se curvar), era bem o símbolo do sentido de festa e boémia inerente ao lifestyle espanhol. Exímia bailarina de flamenco, gostava de aparecer em público vestida de sevilhana, com a cabeça adornada por mantilla y peineta. Fazia-o com tal brio e orgulho que não tardou a contagiar as suas muitas relações internacionais. Em fotografias da década de 1960 vemos a duquesa acompanhada pelas irmãs Jackie Kennedy e Lee Radzwilli, todas vestidas como manda o figurino dos amantes de flamenco, enquanto assistiam a uma corrida de touros ou a participar numa procissão da Semana Santa.

Lola Flores era uma espécie de rainha incontestada dos espanhóis. Também conhecida por La Faraona (1923-1995), foi grande amiga da portuguesa Amália Rodrigues, com quem chegou a fazer um dueto. (Arquivo DN)

Estava-se então em plemedo de cair na ditadura franquista, mas nem mesmo a feroz repressão que a caracterizava conseguiu meter os espanhóis (e, ainda mais espantoso, as espanholas) em casa. A cultura de rua existente em todo o território, de Irún a Algeciras, sobreviveu ao ditador como resiste todos os invernos às intempéries. Tem a energia contagiante do flamenco, que é provavelmente o melhor embaixador de Espanha no mundo. O público conhece as dinastias que, ao longo de gerações, se dedicam ao género e discute-lhes a vida privada com interesse. Nesta espécie de realeza, a rainha incontestada foi Lola Flores, também conhecida por La Faraona (1923-1995), grande amiga de Amália (com quem chegou a fazer um belíssimo dueto) e da estrela de cinema mais apaixonada por Espanha de sempre, Ava Gardner. Casada com o catalão Antonio González Batista, de nome artístico El Pescaílla, também ele cantor e guitarrista de flamenco, tiveram três filhos, todos dedicados a este género musical. A mais conhecida, Rosario, ficou mundialmente famosa ao tornar-se uma “chica Almodóvar“, interpretando a toureira de Fala com Ela.

Este universo, de cores e simbologia bem fortes, tem passado para outras linguagens artísticas, que o têm vindo a citar sem medo de cair no kitsch. É o caso dos grandes nomes da moda espanhola, como Cristóbal Balenciaga, Pertegaz ou, mais recentemente, Sybilla, Agatha Ruiz de la Prada ou a dupla de Sevilha Victorio & Lucchino (que durante anos teve a sua sede na casa onde se diz ter nascido o pintor Diego Velásquez).

Também no cinema, já em plenos anos da movida madrilena, Pedro Almodóvar nunca cortou com este legado tradicional. Pelo contrário, reinterpretou-o e trouxe-lhe um sopro de modernidade. O flamenco e las folclóricas estão omnipresentes quer na banda sonora quer na intriga de alguns dos seus melhores filmes. Em A Flor do Meu Segredo, por exemplo, vemos um muito jovem Joaquín Cortés, ao lado de Manuela Vargas, a dar um verdadeiro show sobre o tablao.

A música une, sem uma palavra, o que a política desune. Muito mais do que a monarquia ou a seleção de futebol (nada consensuais), o flamenco liga as várias nações de Espanha como se fora um rio (Rosalía, a mais recente “estrela” internacional do género, é nascida e criada em Barcelona). O mesmo se poderá dizer da guitarra dita espanhola, que tem conhecido virtuosos vindos de todas as autonomias, desde Paco de Lucía a Iñaki Antón, passando por Vicente Amico ou Narciso Yepes.

Tal como a vizinhança de festa e tragédia, a contradição é parte importante da história de Espanha – quase uma segunda natureza. Já o dizia o filósofo Ortega y Gasset, nas suas Meditações do Quixote: “Nada, em minha opinião, importa mais do que aguçar a nossa sensibilidade para o grande problema da cultura espanhola: sentir a Espanha como uma contradição. Não o assumir será nada perceber do terreno em que estão enraizadas as nossas plantas.” Estava-se então em 1914 e, se muita coisa aconteceu, a contradição permanece. Na sua riqueza e diversidade, o país vizinho continua a ser, como escreveu o poeta Antonio Machado, “um pedaço de planeta onde passa errante a sombra de Caim”.