Correr para comer. Correr para evoluir

Quando é que o homem começou a correr? Porque o fez? Provavelmente para caçar e comer carne de outros animais. A corrida é, segundo alguns investigadores, a chave da evolução humana.

Texto de Marina Almeida

Correr é afinal o mais natural que há. Born to Run é para muitos o nome de um álbum de Bruce Springsteen dos anos 1970, mas é também o título de uma capa da revista Nature em 2004. Lá dentro, o artigo de Daniel Lieberman e Dennis Bramble “Corrida de longa distância e a evolução do homo” traçava uma nova linha de investigação: não, a corrida não é uma consequência natural do bipedismo como outros investigadores sustentam, antes foi a resposta a uma necessidade do homem de se alimentar e caçar.

“Acreditamos que correr é um dos acontecimentos mais transformadores na história do homem”, sublinhou, na altura, Bramble, biólogo da Universidade do Utah, numa entrevista.

Com Daniel Lieberman, paleoantropólogo da Universidade de Harvard, defende que a corrida de longa distância foi o que fez que nos distinguíssemos dos macacos, o antecessor do homo. Uma das chaves de tudo isto é o facto de o homem ser o único mamífero capaz de correr longas distâncias devido à termorregulação. A transpiração permite-lhe arrefecer o corpo em movimento, enquanto os outros animais são obrigados a parar. E por isso, a dada altura, o homo terá desenvolvido aquilo a que estes investigadores chamam de caça persistente: consistia em perseguir, a correr, um animal durante o dia na hora de calor.

A presa não podia ofegar enquanto fugia, entrava em sobreaquecimento e, após 10 ou 15 quilómetros, colapsava de hipertermia. O caçador podia então matá-la em segurança, com nada mais que uma lança ou um taco.

Esta tese defendida por Lieberman continua a desenvolver estudos sobre a evolução humana com o foco na atividade física, quer no laboratório da universidade (com atletas de alta competição e membros de tribos) quer no terreno.

“Encontramos e continuamos a estudar novas características humanas, da cabeça aos pés, que ajudam os humanos a ser corredores superlativos de resistência, incluindo arcos de mola no pé, dedos curtos, tendões longos nas pernas, um grande glúteo máximo, articulações anormalmente grandes nas pernas e coluna, um ligamento nucal ligando à cabeça e ao pescoço, ombros baixos e largos que são desacoplados da cabeça, uma elaboração de glândulas sudoríparas e perda de pelo corporal”, refere na sua página da universidade.

O investigador é também ele um corredor, mas não um corredor qualquer: corre descalço e defende que isso é tão natural como amamentar. Já publicou vários papers em que explica a importância da corrida na evolução humana, sugerindo que o homem se adaptou à corrida ao longo dos anos (e que o sedentarismo a que, por outro lado, as sociedades modernas se dedicam há décadas tem efeitos nocivos na saúde humana). Os caçadores/recoletores corriam quatro horas por dia e foi para isso que evoluiu o corpo humano, considera ele.

Mas voltemos atrás, à necessidade de os nossos antepassados comerem carne. Segundo os cientistas, quando se tornam bípedes, libertando as mãos, os hominídeos (espécies mais próximas dos seres humanos do que dos chimpanzés) começam a produzir artefactos. Isso levou ao aumento do volume do cérebro, um grande consumidor de energia.

Mas há mais. “Vários fatores contribuíram para a mudança do australopitecos para o homo, mas a mudança climática terá tido um papel central”, explica. “A minha hipótese é que no final do Mioceno [época geológica compreendida entre cerca de 24 milhões de anos e cinco milhões de anos] houve um grande arrefecimento da Terra e isso obrigou-os a andar mais para encontrar alimento. Os chimpanzés, agachados, gastavam mais energia do que os que caminham de pé. Se um chimpanzé gasta 165 calorias em quatro quilómetros, um humano gasta 80, como vimos em experiências no laboratório”, diz.

“Há 1,8 milhões de anos o Homo erectus era capaz de caçar grandes animais, como o gnu”, mas o arco e flecha só foram inventados há cem mil anos.

Com o aumento do cérebro, os antepassados do homem, que se alimentavam de bagas, sentiram necessidade de outro tipo de alimentação. Os hominídeos já extraíam das carcaças de animais mortos carne, medula e miolos, estima Lieberman.

“Há 2,6 milhões de anos, o homo fazia instrumentos de pedra para conseguir ter acesso às carcaças dos animais”, refere. “Há 1,8 milhões de anos o Homo erectus era capaz de caçar grandes animais, como o gnu”, mas o arco e flecha só foram inventados há cem mil anos. E é a partir destes factos que desenvolve a tese da caça persistente: “Tudo o que o homem precisaria era de uma boa dose de água antes (e depois) de correr e de um bom habitat, quente e aberto, para perseguir a sua presa.”