A Condessa, o Marquês e «o primo de toda a gente»

Noblesse oblige. Mas no século XXI, em Portugal, obriga a quê? Estes são os retratos dos «novos nobres», que carregam nos nomes a história, o legado e a cultura, mas deixaram para trás muitas tradições.

Texto de Patrícia Tadeia | Fotografias de Orlando Almeida / Global Imagens,
Filipe Amorim / Global Imagens e Paulo Spranger / Global Imagens

«O meu avô era um grande cantor de ópera e excelente pintor. Diziam os meus tios que a voz dele se comparava à dos maiores barítonos verdianos. Mas, naquela altura, não podia ser cantor de profissão. Era o 5.º Conde de São Martinho e tinha nascido para cantar. Conta-se que era muito teatral. Disfarçava-se e entrava pela casa dos amigos a cantar. Era excêntrico, um artista de alma», recorda Joana antes de se sentar ao piano do avô que agora tem em casa, no Monte Estoril.

A condessa de São Martinho herdou de D. Ascenso Inácio de Siqueira Freire o título e a paixão pela música. Joana de Siqueira de Athayde é professora e cantora lírica no Coro da Fundação Calouste Gulbenkian. Quando olha para o passado, confessa: «Tenho pena de nunca ter conhecido o meu avô. Teria sido uma ligação especial. Ele ficaria satisfeito de saber que pude exercer como profissão o que ele nunca conseguiu».

Mas o legado ficou, e foi o tio [também] Ascenso – maestro no Teatro S. Carlos – quem acabou por dar um empurrão a um destino que já estaria traçado. «O meu tio levou-me a uma ópera no S. Carlos. Sei exatamente onde estava sentada. Fiquei maravilhada, colada à cadeira. A ópera chamava-se ‘A força do destino’ e, naquele momento, eu percebi o meu. O palco, os bastidores, os cheiros… tudo me fascinava.»

Começou a ter aulas de piano, fez o Conservatório, frequentou a escola Superior de Canto em Madrid, mas também se licenciou em Gestão e Administração Pública. «Os meus pais ficaram perplexos quando perceberam que era uma vocação. Ainda resistiram até aceitarem», recorda Joana que ao título de Condessa de S. Martinho junta outro: o seu nono avô era o Conde de Azambuja, um título atribuído pelo rei D. José no século XVIII.

«O meu pai dizia que ter um título implicava a noção de dever e serviço e não só direitos e privilégios. No caso dele, que era diplomata, servir o país com excelência era uma forma de honrar os antepassados. Ele achava que a vocação da nobreza era estar nos vários setores da sociedade. Considero que a arte é um serviço que se presta, à beleza e à estética», acrescenta enquanto o gato Faial vai pedindo festas. «É importante saber-se de onde se vem, mas isso deve servir de suporte para se saber para onde se vai».

Mas como é que sociedade olha, hoje, para a Nobreza? «Uns verão com curiosidade, outros com confusão (confundirão com o chamado jet set), outros com fascínio, outros com indiferença, porque não se interessam ou porque não perceberam a verdadeira essência», conclui.

Essência que, quando falamos do Marquês de Abrantes, passa por uma enorme paixão pelo desenho. É no centro de Lisboa, entre pincéis, aguarelas e lápis de cor, que nos fala de uma paixão que já dura há mais de 50 anos. «Há relatos de eu ter um fascínio por BD com dois anos. O meu pai já gostava muito e eu tinha acesso a livros e revistas. Havia uma certa graça de ver um filho pequenino gostar tanto de desenhar. Claro que, mais tarde, quando se começa a pensar numa realização profissional já não acharam assim tanta graça», conta José de Lencastre e Távora, conhecido no meio como José Abrantes. Aos 57 anos, conta mais de 30 livros publicados e desenhos em vários jornais, entre os quais o DN. «Comecei a publicar e a ser pago com 15 ou 16 anos. Eram coisas horríveis, até tenho vergonha de olhar para aquilo. Mas para a época não era mal pago. Recebia 500 escudos por desenho. Chegou para comprar a roupa para uma rentrée. E chegava para comprar outros livros de BD além dos tradicionais do meu pai. Às vezes autores que não eram bem-vindos lá em casa.»

Mas a paixão pelo desenho é bem mais antiga. O título data de 1718, quando D. João V o atribuiu a D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses: «Há um quadro do D. Rodrigo que se atribui ao pintor Vieira Lusitano. Diz-se que seria seu mecenas.» Quanto a património, recorda a Casa de Abrantes, atual Embaixada de França, ou o Palácio das Galveias. «Foi tudo vendido. Chegou a ser a família mais rica do país. Mas o meu avô era muito generoso, dava tudo aos amigos.»

José tem dois filhos. O Frederico tem 16 anos e é «ótimo a Ciências». Já a Leonor tem 19 e quer ser atriz. Com dois projetos em mãos no momento da nossa conversa, deixamos José acompanhado dos seus desenhos. Há «timings» para cumprir. Nunca pensou ter outra profissão. Nem médico, nem engenheiro. «O fascínio pelo desenho foi tão grande, que só queria desenhar». E é assim que passa os dias no ateliê. Já poucos lhe chamam Marquês. «Só de vez em quando, quando leem estes artigos. É simpático e lisonjeiro, mas não encorajo», conclui.

Passam incólumes, sem se dar por eles. São os nobres de hoje. «É um grupo pequeno, como sempre foi, que tem obrigações sem direitos, inerentes ao estatuto histórico que herdou. Ser nobre ou fidalgo não se escolhe. Acontece a pessoas concretas. Aceitar o estatuto e os deveres que acarreta é uma opção individual. Desonrá-lo ou ignorá-lo também é. Acrescentá-lo na continuidade com méritos pessoais é legitimar a herança. As novas gerações têm demonstrado inesperadas recuperações no sentido de honrar o estatuto herdado. Nem tudo está perdido», defende António de Sousa Lara, catedrático do ISCSP e presidente da Academia de Letras e Artes.

Há um sentimento de legado que é respeitado. Assim o faz Diogo de Noronha, bisneto de D. Pedro da Cunha, 4.º Marquês de Olhão. O bisavô, obstetra que fundou a Casa de Santo António, trouxe-o à vida. «Foi ele que me fez nascer. Lembro-me dele, tinha uma maneira de estar um pouco austera. Mas o maior legado dele foi ter deixado uma casa de apoio a mães solteiras», conta o chef de cozinha, enquanto nos recebe no restaurante Pesca que abriu em 2017 perto do Príncipe Real.

«Não vejo o título como responsabilidade. Não me lembro disso no meu dia-a-dia. Sempre foi uma realidade vivida com muita naturalidade. Nunca nos achámos superiores, sempre me incutiram isso. E o meu bisavô nunca viveu encostado a um título. Fundou uma casa que ainda está de pé e que tem familiares envolvidos», recorda.

«Não vejo o título como responsabilidade. Não me lembro disso no meu dia-a-dia. Sempre foi uma realidade vivida com muita naturalidade.»

Das memórias de infância constam os natais no Palácio em Xabregas: «Todo o património histórico, os azulejos do séc. XII… O meu bisavô era um ‘bon vivant’. Tenho ótimas memórias gastronómicas de casa da minha avó materna, comia-se muito bem todos os dias», recorda o chef de 38 anos que até se licenciou em Comunicação Social, mas cedo percebeu que o seu caminho era outro.

«Aos 17 anos fiz uma mudança radical. Tornei-me vegan. Na altura não era uma dieta muito conhecida. Andava de skate, ia a concertos punk, seguia movimentos mais alternativos. Era reacionário, adolescente… Comecei a praticar ioga e meditação. E tive de começar a cozinhar para mim. Já gostava de cozinhar, mas nada com este foco. Ou que tivesse de depender de mim para me poder alimentar», atira.

Seguiram-se viagens para a Índia e Nepal, o curso no Natural Gourmet Institute for Health and Culinary Arts, em Nova Iorque, e a passagem por restaurantes como o Pure Food and Wine, o Per Se (3 estrelas) de Thomas Keller, ou o Moo (1 estrela) em Barcelona. «A decisão que tomei aos 17 anos acabou por ser a espinha dorsal do que sou hoje como cozinheiro. Do que é o caminho do Pesca. O caminho da sustentabilidade é exatamente isso, um caminho. Mas é o caminho que me faz sentido, a minha verdade», conclui.

Para Maria João Bahia, o caminho que sempre fez sentido foi o da joalharia. Filha do escultor João Charters de Almeida, herdou da família o gosto pela arte. «Lembro-me de ir, desde pequenina, para o ateliê do meu pai quando ele trabalhava em barro. Já o meu avô era maestro e compositor. Escreveu vários fados de Coimbra, tinha uma orquestra que recebeu imensos prémios», começa por contar a filha do 4.º Conde da Bahia. O título remonta a 1833, quando D. Miguel I o atribuiu a D. Manuel da Piedade Coutinho Pereira de Seabra.

A Nobreza sempre pesou na família, admite, mas de «uma forma inconsciente». «Não se falava disso, mas existiam regras, princípios e responsabilidades que, de uma forma subtil, nos eram incutidas. Não adianta nada ter quatro ou cinco títulos se não se fizer nada na vida. Se não se for competente, responsável. Sempre foi uma carga acrescida. Eu senti essa responsabilidade», confessa a empresária que desde cedo começou a criar joias. «Aos 17 anos fazia imensos colares que vendia nas lojas. Eram em latão, com missangas, conchas…», recorda ao DN na sua loja à porta fechada na Avenida da Liberdade.

Depois da faculdade, percebeu que queria era praticar. «O que gosto é de estar na oficina a trabalhar, a fazer o trabalho com as mãos. Ter a bata vestida. É a primeira coisa que faço quando chego aqui.»

Maria João, que é casada com o 13.º Conde de Sabugosa, ganhou visibilidade quando foi convidada para fazer os primeiros Globos de Ouro. Desenhou joias, peças de cristal, carteiras, terços para a Seleção Nacional e inclusive um relicário para o Papa Bento XVI, aquando da sua passagem por Lisboa, e um resplendor para o Papa Francisco. Mais recentemente fez uma joia em ouro para Jane Fonda.

«A educação da nobreza foi mudando consoante a sua época e as exigências que lhe eram apresentadas. Atualmente a aristocracia não tem deveres feudais, nem mesmo papel político. O ofício da nobreza é o seu testemunho histórico e cultural. A única regra que tem nesta época é a mesma que sempre teve, manter a humildade e respeitar as origens, seja em que ocasião for», acrescenta o historiador Francisco Teles da Gama que tem centrado a sua investigação principalmente na cavalaria medieval portuguesa e no seu testemunho poético no cancioneiro nacional.

Um respeito pelas origens que se traduz em histórias contadas geração após geração. Em 1841 nascia Cipriano Jardim. O título de Visconde de Monte São herdou-o do pai, Manuel dos Santos Pereira Jardim. O professor catedrático e escritor ficou conhecido como o inventor do primeiro balão dirigível. «A minha avó contava-me tantas histórias do meu bisavô. Inclusive de ele andar a desafiar o Camilo Castelo Branco para duelos [risos]», começa por contar João Jardim Aranha, presidente da Federação Portuguesa de Surf (FPS). E continua: «Ele era ministro do rei, mas não punha lá os pés. A dada altura, o rei fartou-se e meteu-lhe uma carruagem à porta, para ele passar a ir às assembleias. Mas ele continuava a não ir. Então o rei lá o encostou à parede e ele justificou-se dizendo que não estava bem de finanças e, como não conseguia dar uma gorjeta ao cocheiro, não ia.»

As histórias sempre foram contadas pela avó Aurora, «escritora poetisa e jornalista no JN». Era também ela que mantinha viva a memória da bisavó Ann Marie Marck, a segunda mulher de Cipriano Jardim. E por isso lá por casa aprender francês era quase obrigatório. Tal como era usar o anel de brasão de Nuno Álvares Pereira que os homens da família recebiam quando faziam 18 anos.

«Ser nobre não faz as pessoas melhores ou piores. Quando a minha avó me deu o anel de brasão dizia que os pergaminhos não se comem, ou seja, queria que eu me fizesse à vida e trabalhasse», explica no escritório com vista para o mar em Carcavelos. E assim foi, depois do curso de Gestão de Empresas e mestrado em Engenharia do Ambiente no ISCTE fundou, com um amigo, a primeira empresa de reciclagem em 1993. O surf tinha surgido cedo, aos 11 anos, na Costa da Caparica.

Hoje, quarenta anos depois é uma profissão. Pelo meio, João esteve em missões humanitárias na Guiné, Ruanda e Sri Lanka, trabalhou em produção musical, e esteve na criação do Out Jazz. Está na FPS desde 2013, tendo assumido o cargo a tempo inteiro três anos depois. Agora leva a seleção nacional a brilhar lá fora, como quando Portugal foi campeão europeu e vice-campeão do mundo três vezes consecutivas.

«Ser nobre não faz as pessoas melhores ou piores. Quando a minha avó me deu o anel de brasão dizia que os pergaminhos não se comem, ou seja, queria que eu me fizesse à vida e trabalhasse»

Com os olhos na taça de campeão esteve sempre António Félix da Costa. O piloto português de 27 anos, que venceu recentemente a primeira etapa do mundial de Formula E na Arábia Saudita, é também sobrinho do 5.º Conde de Mafra. O título foi criado por D. Maria II de Portugal, em 1836, em favor de D. Lourenço José Xavier de Lima. Hoje é Francisco de Mello Breyner quem o «carrega», ao mesmo tempo que «carrega» um grande orgulho pelo sobrinho. «O meu tio é o meu maior fã, liga-me sempre antes e depois de todas as corridas», confessa o jovem piloto cuja vida mudou quando, aos 6 anos, se sentou num kart.

«Tive sempre o apoio da minha família. A minha mãe também fazia provas a cavalo quando era nova, os meus tios [Pedro, Manuel e Tomaz Mello Breyner] fizeram as 24 horas de Le Mans [em 1997]. Os meus irmãos também competem. Há uma grande cultura de corridas na família», diz. Mas será que o facto de descender da Nobreza influenciou a educação? «Fui educado por uma família com bons valores. A minha mãe fala-me sempre do meu tio ser conde. Se um amigo meu vai lá a casa, ela conta as histórias todas. E arranja uma forma de eu ser primo de toda gente. [risos]»

A competir atualmente pela BMW na Fórmula E, circuito mundial de carros elétricos, António já esteve à porta da Fórmula 1. Esteve na equipa júnior e foi piloto de testes e reserva da Infiniti Red Bull Racing. Mas quando chegou a hora de se tornar piloto principal, em 2013, a política falou mais alto e o seu lugar foi para um piloto russo.

Hoje, brilha na Fórmula E, mas quando está fora da pista confessa que já não é um acelera. «Já passei essa fase. Quando tiramos a carta achamos que somos os melhores pilotos do mundo. Ando em carros de corrida todas as semanas. Sempre que me sento num, há a pressão de 50 engenheiros e de uma marca para andar o mais depressa possível. Por isso, quando chego à estrada o que mais quero é conduzir tranquilo, à minha velocidade, a ouvir a minha música.»

Quando vem a Portugal, onde passa cada vez menos tempo, a paragem no Guincho é obrigatória. Sempre que há tempo, pratica surf e boxe. E confessa ser um sortudo: «Faço o que gosto. Nunca me imaginei a ter de ir para um escritório das 9h as 17h. Seria muito infeliz», conclui.