Uma piscina em Braga

Que querem? Quando me lembro do longínquo dia 12 de agosto de 2006 em que voei num avião da Red Bull, o que de imediato me vem à memória é uma piscina azul. Foi a primeira coisa que vi depois de descolar da pista do aeródromo de Braga e de conseguir voltar a mim, depois da abrupta apresentação às insuportáveis forças G. Quando vislumbrei a piscina, o aviãozinho fazia o pino nos céus comigo lá dentro e eu vi azul no meio de castanho. Estranhei a piscina ali tão azul e eu sentada no céu, com a barriga virada para terra. O retângulo aquático era uma espécie de alvo, (felizmente) improvável, como tudo o que se passa dentro da chapa com asas que voa como uma mosca furiosa.

É um descontrolo – porque imprevisível. De cada vez que tentava encontrar alguma normalidade no fim ou durante uma manobra, seguia-se mais um carrossel de G force: nada do que vivera até então me preparara para sentir todos os meus órgãos revirarem-se tanto.

Pouco depois de descolarmos, o piloto – o holandês Frank Versteegh – fez-se cavalheiro e disse-me que aquele voo era para mim, logo ele faria o que eu quisesse. Mas o espertinho sabia que apesar de eu o ouvir bem, pelos auriculares, não iria conseguir articular palavra, aos trambolhões no céu de agosto. Por isso, fez ele de mim o que quis – eu espalmada na cadeirinha, com as mãos mais-que-cravadas nos ferros que a seguravam à estrutura, ele abaixo e acima, às cambalhotas e voos rasantes na pista. Lembro-me de ter gritado, numa das insuportáveis mudanças bruscas de direção – foi o melhor que consegui fazer.

Quando voltei ao chão, soube que estive oito minutos naquele calvário. Contrariamente àquilo que esperava, a cabeça, os pés, as mãos, estavam no sítio. Seria natural ter-me transformado, com a cara nos pés ou as orelhas no nariz, como num desenho surrealista, mas estava tudo no lugar. O coração é que não.