Uma mão, com seis dedos, cheia de heróis

O Seis Dedos fechava os olhos à nossa idade e servia-nos imperiais com a espuma a escorrer pelo dedo extra que tinha em cada mão. Foi o meu primeiro herói, inventava histórias que na altura nos pareciam muito credíveis, como a de ter ganho concursos de piano porque tocava uma nota que só ele conseguia ou a do Damas ter sido seu guarda-redes suplente no Atlético, porque com aquele dedo a mais fazia defesas que mais ninguém conseguia fazer. Nunca nos explicou como é o Damas foi parar ao Sporting e ele ao “Meia-Noite” o snack-bar onde nos aviava as imperiais com a espuma a escorrer pelo dedo extra, tão pouco nos elucidou onde paravam os discos que imortalizavam no vinil a tal nota que só o dedo extra conseguia alcançar.

Na realidade os consumidores de imperiais não tinham idade em lado algum portanto, para o caso tanto fazia onde as consumíamos. Nos anos setenta os putos podiam fumar e beber cerveja como se fossem os adultos que iríamos ser não tardava muito. Tanto que alguns dos miúdos já trabalhavam e tinham poder de compra que era o que interessava. Íamos juntos ao “Meia-Noite”, os que trabalhavam e os que estudavam, sendo que todos brincávamos como crianças que éramos e sentados na frente do balcão a entretenha tanto podia ser tentar contar, desconfiados do que víamos, os seis dedos de cada uma das mãos do nosso contador de histórias ou trocarmos os pacotes de açúcar por pacotes de cheios de sal que pacientemente trocavamos com esmero.

Quando a infância se transformou em adolescência e a adolescência se esfumou, a maior parte dos heróis, como o Seis Dedos, foram-se desfazendo. Sobraram meia dúzia deles, o Gago Coutinho e o Sacadura Cabral, que para mim contam como um, a amarar no meio do Atlântico cercados por tubarões, ou o Baptista Pereira que ganhou a travessia do Canal da Mancha, um feito enorme, tão importante que no regresso até uma casa lhe deram.

O Tó Catarino hoquista exímio, que até foi à seleção nacional onde jogava o Livramento, mas que o pai, leal ao seu bairro de origem, nunca deixou que jogasse noutro clube que não fosse o Campo de Ourique. Era de uma humildade a toda a prova, pouco falava dos seus feitos desportivos, era muito mais velho do que os miúdos do bairro para onde se mudou no fim dos anos sessenta, mas muito nosso amigo e na garagem dele havia uma pista de carrinhos, inventava campeonatos onde éramos pilotos, mecânicos, espectadores mas sobretudo, putos felizes. Era ali também que a vizinhança se juntava para sardinhadas e convívios que às vezes metiam festas onde podíamos levar as namoradas para dançar.

O Zé Hermanegildo foi preso pela Copcon na sala de jantar dos meus pais no dia 26 ou 27 de abril de 1974. Era o meu tio favorito, tinha um cartão que lhe dava acesso aos estádios sem sequer ser jogador de futebol, estava de férias em casa dos meus pais e era o irmão mais novo da minha mãe. Era muito convicto do Salazar mais o seu Portugal de Minho a Timor e foi, voluntário, combater os terroristas para Angola, primeiro como paraquedista e mais tarde entrando para as fileira de uma tropa de elite que parecia ser uma coisa mais ou menos secreta, até chegar a revolução de abril que o levou a perder a liberdade, ficando uns tempos hospedado em Alcoentre. Mais tarde regressou a Angola para recuperar um filho que lá tinha deixado e mais alguns bens, mas a coisa acabou mal e teve de fugir para a África do Sul com o carro cheio de buracos de balas e o capot a arder. Por lá integrou um exercito que se propunha tomar Luanda e conta a lenda, ou antes, contava ele, que chegaram a cercar Luanda mas que “por ordens superiores” tiveram de regressar a casa.

De vez em quando aparecia para um período de férias e trazia-me sempre pacotes de cigarros estrangeiros enquanto me tentava convencer que Salazar tinha sido o grande herói contemporâneo da história portuguesa.

O meu herói na história é, ainda hoje, Egas Moniz. A história do aio de D. Afonso Henriques figurava nos livros da escola primária, salvo erro no livro da 4ª classe, história que ensinava o significado da palavra de honra e nobreza de carácter, ao apresentar-se perante o rei D. Afonso VII, de corda no pescoço junto com a família depois de ter falhado com o compromisso de convencer D. Afonso Henriques a prestar vassalagem ao rei de Castela.

Esta história marcou um traço do meu carácter e a lembrança consciente do momento em que tal aconteceu. Outros heróis são personagens que o nosso imaginário alimenta, uns ficam pelo longo que é a vida, outros com pés de barro desfazem-se em poeira e ainda outros passam de heróis a pessoas inspiradoras de profundo respeito, provavelmente lá mais para o fim da vida essas contas possam ficar mais certas, mas há sempre heróis que nos ficam das idades próprias para se sonhar e não há sonhos sem heróis.

De todos os heróis que fui colecionando na vida real, o favorito foi um irmão do meu pai, piloto da Tap que um dia passou pela ar sobre a terra do avô dele e deixou cair umas centenas de papeis. Soube desta história anos mais tarde quando, arrastando três filhos ainda em idade de guloseimas, hakunas matatas, pocahontas ou feiras com carrinhos de choque e algodão doce, os levei a Melgaço, terra natal da minha avó e do meu bisavô. Enquanto lhes contava histórias da família e ia tirando as fotografias da praxe junto à casa brasonada onde viveram várias gerações da família, uma galega aproximou-se e curiosa perguntou-me se era da família.

Satisfeita com a resposta confidenciou-me “A sua avozinha deu-me catequese e o seu tio, aquele que era aviador um dia passou por aqui de avião e arremessou umas centenas de papeis sobre a vila, e em cada papel dizia “gosto muito de si avozinho”, todos nós, ainda crianças conforme íamos apanhando os papéis íamos levá-los a casa do seu bisavô que deitava uma lágrima a cada papel que lhe entregávamos, e olhe que foram muitos”

Anos mais tarde morreu num acidente. Um voo de treino debaixo de forte temporal, o avião a embater nuns cabos elétricos e tudo acabou num desgosto para as famílias e para mim próprio, eu que não cheguei sequer a conhecê-lo, pois quando anunciei à família que queria ser piloto de aviões levei um valente puxão de orelhas da minha avó que me colocou assim num sentido muito terrestre. Mais tarde fui durante uns tempos piloto de rallyes, pude assim voar, mas baixinho porque mesmo que a minha avó já não fosse viva, o respeitinho é uma coisa muito bonita.