Só?

As estrelas Michelin foram atribuídas pela primeira vez em Portugal, como certamente sabe. Nenhum restaurante perdeu as estrelas conquistadas no ano anterior – o que é muito, muito positivo. Talvez uma das melhores notícias da noite da Gala e talvez, também, a menos exaltada.

As boas notícias foram as novas conquistas. A segunda estrela para o restaurante Alma de Henrique Sá Pessoa e as estreias «estreladas» em restaurantes de Sintra, Guimarães e Bragança – o que mostra que a Michelin está atenta ao que se faz fora das grandes cidades. Positivo. Mas ao mesmo tempo parece pouco, muito pouco.

Quem segue de perto a evolução da gastronomia portuguesa – seja como profissional da área ou comensal – sabe que as diferenças entre restaurantes portugueses e espanhóis de fine dinning não são assim tão grandes.

Custa a crer, aliás, não acredito, que não exista qualidade para mais estrelas em mais locais.

A evolução dos restaurantes portugueses tem sido brutal, sobretudo nos últimos anos. E não são apenas os restaurantes mas tudo o que gira em volta: sommeliers, fornecedores, produtores – como retratámos na edição de novembro da DN Ócio.

Mas estas linhas voltam a esse assunto para reforçar que é impossível que tanta gente em Portugal faça tão bem o seu trabalho e este não seja reconhecido como sinónimo de mais estrelas em restaurantes em Portugal. Custa a crer, aliás, não acredito, que não exista qualidade para mais estrelas em mais locais. Não vou exagerar e dizer que «a montanha pariu um rato» na última Gala Michelin, mas acho que todos estavam à espera de mais.

Resta-nos esperar que o que aconteceu na arquitetura aconteça na gastronomia. E agora é só chamar (ainda mais) a atenção internacional.

Basta fazermos um paralelismo com a arquitetura portuguesa. Há cerca de uma década e meia estávamos num estádio de reconhecimento internacional inferior aos espanhóis (se calhar até mais psicológico do que real).

Mas hoje tem dia, porque a arquitetura portuguesa tem características únicas e a nossa criatividade também temos arquitetos nacionais reconhecidos nos quatro cantos do mundo, a receberem prémios e distinções tanto ou mais que os seus colegas espanhóis.

Não se trata de complexo de Padeira de Aljubarrota, mas na gastronomia estamos a fazer muita, mas mesmo muita coisa certa. Não se percebe que só tenham sido entregues estas estrelas. Resta-nos esperar que o que aconteceu na arquitetura aconteça na gastronomia. E agora é só chamar (ainda mais) a atenção internacional.