Sem fronteiras

Quem nunca, ao chegar perto de uma fronteira, quis pôr um pé em cada país? Quem nunca? Agora imaginemos algo diferente. Quem já entrou numa casa em que a cozinha e a casa de banho estão num país diferente do resto? Muito poucos, certamente. A não ser que viva nas vilas de Baarle-Hertog, na Bélgica, e de Baarle-Nassau, na Holanda.

Oficialmente, Hertog são vários enclaves belgas dentro da Baarle holandesa. Para quem lá vive é uma realidade assumida há séculos. Os próprios habitantes são um misto das duas nacionalidades. E perguntar a alguém se é mais belga do que holandês, ou vice-versa, pode gerar uma resposta confusa. Quando vivi na Holanda, e visitei o local pela primeira vez, foi das primeiras perguntas que fiz – sem ter êxito numa resposta contundente e afirmativa.

Mas há mais curiosidades: existem duas igrejas, dois corpos de bombeiros, a câmara municipal (stadhuis) de um local e do outro.

No chão, desenhos de pequenas cruzes brancas ladeadas pelo B de Bélgica e o NL de Nederland (Holanda) indicam em que país estamos. Mas há mais curiosidades: existem duas igrejas, dois corpos de bombeiros, a câmara municipal (stadhuis) de um local e do outro. Junto às portas de cada casa há uma bandeira, ora a tricolor belga ou a tricolor holandesa – independentemente da nacionalidade de quem viva lá dentro. E o mesmo se aplica com os serviços de internet, telefone, gás, etc. Basta imaginar.

Disseram-me alguns habitantes, numa cerveja bebida numa esplanada num verão quente atípico da região, que a independência da Bélgica do Reino Unido dos Países Baixos, por volta de 1830, separou os terrenos de um casal de duques enamorados. Para não se separarem por completo, ela e ele decidiram trocar pequenos pedaços de terreno entre si, criando uma das zonas fronteiriças mais confusas da Europa – e talvez uma ideia romantizada do que realmente aconteceu.

Nunca mais me lembrei de Baarle. Mas há poucos dias o jornal belga De Morgen chamava à primeira página o assunto, também por cá debatido, do fim da mudança de hora de inverno e verão e da possibilidade de Bélgica e Holanda passarem a ter uma hora de diferença entre si. Não consegui deixar de pensar nos simpáticos habitantes das duas Baarles. E na confusão que irá instalar-se.