Santo António dá-te asas

Se calhar isto nem aconteceu, mas eu acho que sim. Não é mais uma daquelas ficções, mito urbano ou poema perdido numa página de jornal. Houve tempos, nos idos anos 1990, que uns miúdos de Alvalade resolveram pôr um par de vasos aos pés da estátua do Santo António. Mas não eram umas plantas banais – nem sequer legais. Os vasos postos aos pés do Santo António de Lisboa tinham canábis.

E ali na praça pública os pés de canábis fizeram-se verdes e viçosos, alegres com os cuidados continuados das devotas do santo lisboeta.

Começou por ser uma brincadeira. Os pés de canábis no meio da Praça de Alvalade, aos olhos de todos (e de nenhuns). E, depois, descobrir que as senhoras que cuidavam das gerbérias, das rosas ou das margaridas, plantas de corte, frescas, colocadas em jarras na base da estátua, regavam também as plantas verdes pontiagudas. Os miúdos deixaram ficar os vasos. Iam vigiá-los, a várias horas do dia e da noite. E ali na praça pública os pés de canábis fizeram-se verdes e viçosos, alegres com os cuidados continuados das devotas do santo lisboeta.

A novela durou algum tempo, meses. Os miúdos viam as plantas crescer, as senhoras regavam-nas com o mesmo esmero com que cuidavam da restante flora colocada na base da enorme escultura de António Duarte.

A história acabou porque um dia alguém deu pela brincadeira e talvez tenha chamado a polícia – mas o mais certo, e acho que foi isso que aconteceu, é os vasos terem sido levados por outros miúdos do bairro.

Um dia os vasos de canábis desapareceram da estátua do Santo António. A devoção do padroeiro da cidade passou a ser feita como até então, com flores, de corte. Legais.