Quase que conduzi o futuro

Não, descansem, não se trata de um claim político. É mesmo porque nos últimos dias conduzi um Tesla, o Model S. Automóvel 100 por cento elétrico e que se tornou a melhor experiência que já tive ao volante – e já perdi a conta ao número de carros de alta cilindrada que testei e experimentei e gostei.

Foi quase como conduzir o futuro.
E o quase está na linha anterior não está por modéstia ou simpatia mas sim porque, afinal, ainda nos falta o quase para podermos andar descansados com um automóvel elétrico. Vamos por partes.

  1. Rede pública.
    Metade não funciona. E os que funcionam têm os ecrãs estragados o que nos faz carregar em botões à sorte até aquilo começar a carregar…ou não. Depois há uns que carregam mais rapidamente de que outros. No que testei, ali para os lados de Algés, pediu-me 24 horas para carregar toda a bateria do Tesla. Não me pareceu exequível ir à minha vida e deixar um automóvel de 150 mil euros na rua a carregar, nem 24 horas sem carro.
    Na app da rede de carregadores públicos é notório que ainda nos falta muito caminho a percorrer para que seja bem mais viável confiarmos as nossas viagens nos postos de abastecimentos. Há zonas com muitos escritórios que não têm nenhum carregador no espaço físico de 3 quilómetros de distância. Pode ser que a partir de novembro, quando os carregamentos passarem a ser pagos exista investimento para melhorar toda a rede.
  2. Falta de informação geral.
    Tudo o que anda à volta do carregamento de automóveis elétricos ainda está muito confuso. Por exemplo, a Tesla tem um acordo com alguns hotéis para utilizarmos os carregadores que têm instalados. Já com a bateria a menos de metade, e como sou um tipo prevenido, decidi ir a uma dessas unidades hoteleiras – perto de casa – para colocar umas cinco horas a carregar e assim usufruir da condução sem stress durante o resto do fim-de-semana. No local, tudo perfeito. Disponibilidade, simpatia comme il faut, até que a rececionista diz: «de acordo com ordens do nosso diretor, o senhor tem de ficar dentro do hotel enquanto o automóvel estiver a carregar»…; ainda pensei que era aquele humor que agora muitos pensam ter, mas não. Tinha mesmo de ficar por ali. A lógica? Nenhuma. Eu é que ia deixar uma carro de valor nas instalações…Não percebi, de tal forma que passados dois minutos estava novamente dentro do carro a deslizar em busca do carregador perdido.
  3. «Guerra» certa com os vizinhos.
    A esta altura já devem estar a pensar porque razão não coloquei na garagem lá de casa – assumindo que se tenha uma. Sinceramente é o ideal. Sobretudo durante a noite. Deixei o Tesla na garagem pelas 22h com 60 km de bateria restante e quando o levantei, pelas 9h, tinha mais 140 km de bateria. Mais que suficiente para o dia-a-dia de casa, trabalho, um eventual almoço e regresso a casa. O mundo finalmente parecia fazer sentido e senti que estava a viver o futuro um pouco mais cedo que a maioria das pessoas. Até que recebo um e-mail de reclamação dos meus vizinhos. Porque não pedi autorização para o carregamento, que era um abuso, que há custos a imputar. Que era, sobretudo, uma falta de civismo! Depois de ter estado 10 minutos a hiper-ventilar, acalmei. Um tipo que anda de carro elétrico importa-se com o planeta e com os outros, não pode ser intempestivo. Tentei dar o exemplo de boa cidadania dizendo que no final da experiência faria as contas com a ajuda da marca e que iria transferir o montante. Namasté!
    Para vos ajudar a terem uma ideia de custos, carregar cerca de 140 km de bateria custa qualquer coisa como 4 euros. Mas depende das tarifas da eletricidade da garagem, se for bidiária pode ainda ficar mais barato. Pela norma, carregar toda a bateria pela tomada lá de casa custa uns 15 euros. Bem mais em conta que encher o depósito de um carro a combustão.
Mas por enquanto, ou o leitor tem vizinhos simpáticos ou o mais certo é ficar elétrico de nervos com os carregamentos do seu carro zero emissões.

Fora estas «curiosidades» os carros elétricos são mesmo o futuro. Claro que testei um topo de gama, com dois motores potentes, que demora escassos 3 segundos a ir dos 0 aos 100km/h e nos deixa «pregados» ao banco com o maior prazer do mundo. Mas mais importante do que isso foi verificar que Portugal, sobretudo Lisboa, está quase lá, mas ainda lhe falta o «quase» para a mobilidade elétrica.

Sei que no evento organizado na passada semana foram discutidas medidas, porque não há volta a dar e o futuro é mesmo a mobilidade sustentável. Mas por enquanto, ou o leitor tem vizinhos simpáticos ou o mais certo é ficar elétrico de nervos com os carregamentos do seu carro zero emissões.