Para que servia o tostão?

Teve início em criança, como quase tudo, quando comecei a juntar-me ao grupo de amigos que, de porta em porta, pedia “um tostãozinho para o Santo António”.

Naqueles tempos sem telemóveis em que os pais nos confiavam aos santos, andávamos pelas ruas do bairro a pedir o tostão. As incongruências começavam logo ali, pelo menos na minha cabeça: o que era um tostão?

Afinal a professora primária só nos tinha falado em escudos e centavos, o que era este tostão? Valia menos ou mais? Era a moeda própria dos santos?

Estas preocupações, como todas as que existem nos primeiros anos de vida, duravam segundos. Mas eram constantes. Mas mais dúvidas existiam. Se pedíamos para o santo, porque íamos a correr gastar os tais tostões – que milagrosamente se transformavam em escudos – em pastilhas elásticas? Supostamente o santo não ficaria chateado? Às vezes pensava se o menino que o Santo António carregava ao colo não estaria a ser raptado por se ter portado mal.

Se ele era o santo casamenteiro e eu nunca tinha namorada para oferecer uma alcachofra devia ter alguma relação com os tostões que não lhe devolvi.

Anos mais tarde, e depois de resolvidos estes dilemas pueris, deparei-me com outros. Não sei por que razão mas, ano após anos, nunca conseguia levar namoradas para a noite de Santo António. Era quase uma maldição. O assunto depois da faculdade ficou resolvido, mas até lá, sempre que se aproximava o final das aulas e a chegada dos Santos, qualquer coisa acontecia e as raparigas despachavam-me para ficarem livres para os amores de verão. E eu, nas primeiras vezes triste, nas outras obstinado, culpava o Santo António da minha Lisboa. Se ele era o santo casamenteiro e eu nunca tinha namorada para oferecer uma alcachofra devia ter alguma relação com os tostões que não lhe devolvi.

E lembro-me como se fosse hoje, na noite de santos, passeava na Avenida da Liberdade e vi um casal de adolescentes, mais velhos do que eu, aos beijos encostados a uma árvore. Ele de T-shirt branca e ela de manjerico na mão, quase a cair devido à fogosidade do, talvez, primeiro beijo. A inveja com que fiquei causa-me sorrisos hoje. Mas na altura custou ver a felicidade dos outros. Se não era eu ali, de T-shirt branca vestida, a culpa seria do santo, mais que certamente. Passei a embirrar com o santo, aliás, ficava feliz quando a música popular cantava “Santo António já se acabou”…, quanto mais depressa passassem as festas do santo de Lisboa, melhor.

Anos mais tarde, finalmente, consegui ter namoradas para levar para as noites de Santo António a quem sempre ofereci manjericos. A maldição parece ter-se quebrado e fiz as pazes com o santo. Porém, pelo sim, pelo não, quando os meus filhos, por esta altura, me falam de ir pedir dinheiro para o Santo António, digo-lhes sempre que é melhor não. Não vá o santo tecê-las.