A paixão do agente secreto


É verão em Los Angeles e o povo do interior atira-se às praias, os Lakers preparam tapete vermelho ao Le-Bron James e Hollywood invade os cinemas com filmes de comédia, de monstro à solta, de assalto a arranha-céus. Por trás de portas trancadas, Quentin Tarantino filma Brad Pitt numa interpretação da noite em que o gangue de Charles Manson visitou Bel Air. A cidade mantém-se ocupada imaginando, produzindo aquilo a que eles chamam conteúdo.

De vez em quando a cidade criativa repara que, do outro lado da geografia e do espetro político, o presidente Donald Trump existe. Há dias os californianos ficaram preocupados quando o presidente, numa visita ao Reino Unido (pátria de grandes recursos dramáticos que sempre enriqueceram a indústria da imagem em movimento), declarou a sua reprovação face à vaga de emigrantes que tem chegado à Europa, dizendo que iria destruir as culturas milenares do Velho Continente.

Tendo eu estado em Lisboa e noutras regiões de Portugal em maio, sabia que a pátria se mantinha saudavelmente habitada por gentes gentis vindas das mais variadas proveniências. Mas, desta vez, fui ver se era verdade que a demais Europa estava adulterada, menos única, menos excecional por causa da emigração. Meti-me num avião e atirei-me à tarefa de verificar a pureza corrente da vida na capital da Suécia. Pretexto: a promoção de novo filme de Hollywood baseado na música dos Abba. Pude respirar fundo. O norte loiro da Europa pareceu-me imperturbado diante das recentes sensibilidades migratórias vindas do sul. Em Estocolmo tudo se mantém fiel à sua própria natureza e, ao mesmo tempo, globalmente integrado. O taxista que me levou do aeroporto ao hotel, um antigo refugiado iraquiano, veio ao volante de um daqueles modelos novos da Volvo que agora fazem parte da multinacional chinesa controlada pelo Partido Comunista de Pequim.

Já instalado no hotel, verifiquei que uma das chefes de hospitalidade era uma moça originalmente de Mogadíscio com afinidade pelo sorriso fácil mas aprumado. Passeando pela baixa, notei que o rei ainda mora como as outras pessoas numa artéria cara da capital (refiro-me ao rei verdadeiro, o futebolista Zlatan Ibrahimovic). Ao largo a cidade mantinha-se sereníssima. Afinal, e ao contrário do alarmismo de Donald Trump, a Europa continua íntegra na sua evolução multiculturalista.

«Tenho andado sempre de um lado para o outro», disse ele. «Já viajei nos lugares traseiros do autocarro e nos lugares da frente. Já viajei no tejadilho e já houve quem me quisesse atirar para debaixo da carroçaria.

Mesmo o filme Mamma Mia! Here We Go Again, o tal sobre as canções inocentes dos Abba, conseguiu proteger a tradição, apesar de recorrer ao talento da emigração global. Um desses emigrantes é o ator Pierce Brosnan, o menino pobre da Irlanda que ascendeu a estrela de cinema e passou a ser conhecido pelas aventuras do agente secreto James Bond. «Tenho andado sempre de um lado para o outro», disse ele. «Já viajei nos lugares traseiros do autocarro e nos lugares da frente. Já viajei no tejadilho e já houve quem me quisesse atirar para debaixo da carroçaria.

A vida de ator é assim. Há altos. Baixos. Por vezes gostam de ti. Por vezes só gostam de metade de ti.» Mas, pergunto eu, onde é que o seu destino migratório o levou? Onde é que ele se sente em casa? «Quando imagino o meu regresso ao lar, imagino a nossa vida em Kauai», diz, referindo-se à ilha havaiana.

«De cada vez que pergunto à minha mulher, Keely, onde quer ir, a resposta é sempre a mesma: Kauai. O resto já se adivinha. Onde quer que ela vá, estarei ao lado dela. Muito simples. Não tem nada que saber.» Por vezes, quando há muita sorte de feição, a vida permite que o amor nos diga onde vamos viver.