Outras prioridades: Portugal visto pelos olhos dos outros

Estava em plena mata atlântica perto de Ilhéus, no estado da Baía. Depois de dias a ler e a espreguiçar num resort, decidi explorar as zonas em redor com um grupo de turistas. Às tantas comecei uma conversa com um casal de argentinos. Ele médico, ela professora. Conversa agradável, que passou pelo deus Maradona, o tango, o fado e o vinho. Falei do Porto e aí a conversa sofreu uma reviravolta. O homem argentino afirmou, sublinhou e teimou a pés juntos que o vinho do porto era chileno e não português. Fiquei incrédulo. Retorqui e discuti e mesmo assim ele ficou na dúvida. E admito, a conversa ficou por ali.

Anos mais tarde, a viver em Amesterdão, eu era um europeu quase exótico para os locais. Achavam piada ao português da terra do fado e sabiam a origem do vinho do porto. Não raras vezes falavam-me de duas personalidades que, para além do sol do Algarve, eram para eles sinónimo de Portugal: Fernando Lameirinhas e Fátima Moreira de Melo. Lameirinhas é um cantor de fado, e também escritor, natural do Porto, que emigrou em 1959 para a Bélgica e mais tarde para a Holanda.

É presença assídua nas televisões holandesas sempre que o assunto é Portugal e, claro, fado. Fátima Moreira de Melo, nome mais português era impossível, é a ex-estrela e capitã da seleção holandesa feminina de hóquei em campo – um desporto de elite lá nas terras baixas. Loira de olhos acastanhados (e hoje é estrela internacional de póquer) filha de pai português e que mal arranhava umas palavras na língua de Camões.

Foi um novo Portugal para mim. Desconhecia estes dois exemplos e duvido de que a maioria dos portugueses saiba quem são.

Anos mais tarde, no final de 2018, visitei Paris em reportagem. Entre entrevistas e visitas guiadas, tirei tempo para ver e sentir um pouco o ambiente da cidade. Ali nuns bares perto do bairro Pigalle, com um ambiente jovem e muito parecido com o que se vive aos fins de semana no lisboeta Cais do Sodré, falei à paisana (sem caderno de notas ou gravador em riste) com parisienses e percebi o quão conheciam Portugal. Poucas ou nenhumas dúvidas existiam nas áreas em que a conversa tocava. Não deixa de ser estranha e nova esta ideia diferente que certos países têm de Portugal. E como aos seus olhos hierarquizam as suas preferências.