O vazio da mente, mente?

apps. Há tutoriais no YouTube. Há livros e mais livros que enchem secções próprias nas livrarias. E inúmeros artigos na comunicação social (nacional e internacional). É hoje possível saber tudo, mas tudo, sobre o assunto que está na ordem do dia há vários anos: a meditação.

Parece ser a cura para os males dos tempos que vivemos. Entre eles a falta de sono, a obesidade, a autoconfiança e a calma interior – aquela mesmo que nos faz falta quando respondemos acima do tom ao chefe mais chato.

O truque da meditação, dizem “as fontes ligadas ao processo”, é esvaziar a mente. E é aí mesmo que a coisa se torna herculínea. Porque é tão simples quanto difícil.

Já tentei. Juro. Inúmeras vezes. Passei por todos os processos. Desde o vídeo do YouTube com música com passarinhos que ajudam, de facto, a adormecer – mas só. Às apps com vozes radiofónicas que nos tentam acalmar. E acalmam. De tal forma que nessa altura encontro tempo para ter ideias para a minha vida. Para artigos, para reportagens, para finalmente pensar em terminar com aquele seguro parvo que subscrevi sem saber bem porquê, ou para começar a pensar naquela viagem que adio há anos. Consigo fazer isso tudo menos o real designo da meditação: ter a cabeça vazia.

Uma das apps, que tem muito sucesso e que já ganhou vários prémios internacionais (Headspace), guia-nos pelo processo. Tenta ensinar-nos a respirar, a sentir o estômago, os pelos da nuca e a percorrermos o corpo para termos noção do que sentimos e somos. Antes de chegar aos joelhos acontecem-me, sistematicamente, duas coisas: ou tenho uma ideia, levanto-me e vou apontar no smartphone; ou adormeço. Sendo a segunda a mais recorrente. Começo a pensar seriamente que a meditação não funciona com mentes que se querem criativas. Tudo isto, da cabeça vazia, fez-me recordar uma história.

Há uns anos, no tempo em que era muito feliz nos corredores do Liceu Pedro Nunes, ia frequentemente a casa de um dos meus melhores amigos, o Ricardo. Não raras as vezes pedia-me para fazer pouco barulho porque o pai estava a meditar no quarto. Lembro-me de ficar maravilhado. Ter um pai que medita deve ser brutal. Passados uns belos anos, e sendo eu agora pai de dois rapazes bem ativos, nada me tira da cabeça que era truque do senhor para poder descansar, dormitar e ter paz por uns momentos no final do dia do regresso do trabalho. Este foi talvez o grande ensinamento que a meditação me deu. E mais dia menos dias vou começar a meditar como a metodologia do pai do Ricardo.