O som do bater apressado do coração de um bebé por nascer

No corredor do hospital o som era uma gargalhada, um misto de gozo de felicidade até de segurança, que acompanhava o desnorte de um jovem casal, ela sentada numa cadeira de rodas ele a guiá-la. Quem ria de uma forma ritmada era o pai da rapariga a adivinhar o que ia na cabeça dos dois.

Umas horas antes uma SMS preocupante “a tua filha passou a noite a vomitar, foi agora para o hospital”, era a mãe da filha, não falavam habitualmente pelo que a mensagem significava que a coisa era grave. O casal tinha chegado de Marrocos na noite anterior, não tinham comido as mesmas coisas, o diagnóstico era claro, até mesmo para quem tenha obtido a sua formação médica no google: gastroenterite.

O pai tinha hesitado na urgência em marcar presença, ansioso e preocupado claro, mas o importante era não interferir na relação do casal e deixar a filha e o genro serem independentes, serem adultos a saber estar um para o outro. Pouco depois um SMS da filha empurrou-o para a estrada, mesmo repetindo pelo caminho “Não és médico, não depende da tua urgência as melhoras da tua filha”. Mas qual quê, “pai, estou no hospital, mas não te preocupes…” era a senha que precisava para avançar a voar estrada fora. Minutos depois à porta do gabinete 49, a filha sentada na cadeira de rodas. Aí entrou no modo sereno e tranquilo, o sorriso que se seguiu na cara da filha, denunciava aquilo que se saberia meia hora depois: a gastroenterite trazia um bónus.

Aquele pai que acabava de ser promovido a avô lembrou-se dos sons que o emocionavam: o som do mar, Pavarotti a cantar o Nessun Dorma, o nocturne nº 2 de Chopin, o som dos pássaros, do vento a romper pelas frestas.

Aquele pai que acabava de ser promovido a avô lembrou-se dos sons que o emocionavam: o som do mar, Pavarotti a cantar o Nessun Dorma, o nocturne nº 2 de Chopin, o som dos pássaros, do vento a romper pelas frestas. Mas nada havia que comovesse tanto aquele avô do que o som, já esquecido, agora a regressar com toda a sua intensidade.

Depois as palavras, a invenção maior do ser humano, a interpretação dos sons que saem da boca, os abraços, o nomeado avô a dar gargalhadas, contidas no desfrute do momento, a indicar àqueles jovens que sim, agora é que vão ser adultos. Só se é adulto quando se tem um filho e que não há melhor som no mundo do que o bater apressado do coração de um bebé por nascer.