O silêncio que incomoda

Foi um presente pelas boas notas na escola. Um rádio preto de uma marca alemã coberto com uma também negra capa protetora para evitar riscos e mazelas – como hoje se faz com os telemóveis. Naquela altura, em 1983, antes de se levantar para a escola primária, o rapaz tinha o ritual de acordar minutos mais cedo e ligar o rádio que metia debaixo da almofada. Voltava a adormecer embalado pelo som da música ou da voz dos locutores. Lembra-se de ouvir os primeiros êxitos dos Heróis do Mar ou as graças quase inocentes dos Parodiantes de Lisboa. Para onde fosse – de férias ou em casa de familiares -, o rádio ia com ele.

Mais tarde, já na adolescência, com a chegada do Walkman e dos headphones, adormecia com a música já dentro das orelhas. Fosse que estilo fosse, embora preferisse a música pop da altura. Recorda, sobretudo, os dias em que, ou por falta de pilhas ou por outra razão menos importante, não podia adormecer ou acordar a ouvir música. Estranhava o silêncio. Incomodava-o. Procurava incessantemente um som – fosse o ranger das madeiras velhas da casa pombalina onde vivia ou o arranhar das patas dos pombos na caixa dos estores no exterior. E, por vezes, quando a noite já ia alta, chegava a acordar pela falta de barulho. Aí concentrava-se no som agudo dos semáforos da rua que apitavam ritmadamente.

Descansava ainda mais quando ouvia as primeiras vozes das gentes do bairro a falar em voz alta. Nessas alturas, voltava a dormitar descansado.

Lembra-se da alegria, mas sobretudo do conforto, de voltar a ouvir, ainda de madrugada, os autocarros que passavam na estrada. E por mais estranho que pareça, toda aquela orquestra servia-lhe de conforto. Descansava ainda mais quando ouvia as primeiras vozes das gentes do bairro a falar em voz alta. Nessas alturas, voltava a dormitar descansado.

A tecnologia evoluiu mas continuou a servir as suas necessidades. Já homem feito, pegava no leitor de MP3 e adormecia ao som de bandas sonoras de filmes que lhe aconchegavam os sonhos. Ainda hoje, liga o Spotify e adormece a ouvir música ou podcasts em língua estrangeira. Só assim, embalado pelo som, consegue dormir o sono dos justos.