O que custa é a distância da liberdade

Ensinaram-me desde pequeno a manter distâncias, lições introduzidas de uma forma subtil, começam logo ao gatinhar os avisos sobre a distância que devemos manter, sobretudo de objetos como o aquecedor no inverno, as ventoinhas no verão ou as tomadas de eletricidade, tentativas para arrefecer o sentido de explorador que qualquer criança tem, incongruências dos adultos que tão depressa “Olha, o menino já gatinha, estou tão contente”, para depois “Não vás para aí, raça do moço que não para quieto”, dito com sotaque algarvio, evidentemente.

Tudo piora quando cedemos ao ADN de Homo erectus e começamos a dar passos descoordenados, quase sempre em direção ao disparate. Inicia-se o “não vás para aí” que, no meu caso, acabava invariavelmente em confinamento no parque infantil, dois metros quadrados, rodeado de barras e brinquedos que eu me entretinha a expulsar como forma de mostrar a minha insatisfação.

Depois de ter bebido petróleo, ter comido sabão macaco ou ter enfiado um grão pelo nariz acima que só se libertou graças a um espirro dado já à porta do consultório médico, chegou a vez de ir para a escola primária. Aí os avisos ganharam outro tom, já não era o homem do saco ou o limpa-chaminés, era o perigo do mundo exterior, era o “Não aceites guloseimas de ninguém” era a ameaça de ser levado por ciganos, entre outras imaginativas formas de as mães nos protegerem sem GPS.

Mais tarde as coisas melhoraram, mas havia sempre o aviso no ar – “Cuidado com as más companhias” -, tudo apelos para manter distância de pessoas que podem desviar-nos, como a namorada que arranjei no verão de 1975, uma morena de olhos azuis que apresentei à minha mãe, sentada ao abrigo do sol, na barraca familiar na praia de Albufeira. Foi a primeira miúda que vi fazer topless. Eu e a minha mãe, o que a trouxe silenciosamente preocupada durante aqueles meses de férias de verão.

Só não fui preparado para aprender a manter distâncias por causa de um vírus, estar fechado em casa por imposição não é fácil, a liberdade custa tanto a ganhar e sobretudo a preservar, mas a vida é um bem muito mais precioso, por isso fico em casa, à espera do momento em que poderemos festejar o regresso dos dois mais preciosos bens que a existência humana tem; a vida e a liberdade.