O largo com história

Num quarto andar de um prédio situado na exata rua onde anos antes se tinha dado a famosa Vigília da Capela do Rato, e onde hoje se fazem romarias rua acima com a fé dirigida aos preços do supermercado. Nessa mesma rua cresceu um rapaz que da sua janela viu, mesmo sem querer, acontecer democracia.

Ele, que até meio da adolescência passava horas à janela e que, nos dias claros sem nuvens, conseguia ver uma nesga do Tejo e alguns barcos e ainda a serra da Arrábida.

Dali daquela janela viu passar manifestações políticas frequentes. Como a vez em que uma multidão de chapéus de palha acompanhou Freitas do Amaral e o seu loden verde nas eleições presidenciais de 1986.

Ou, anos antes, da mesma janela observava as reuniões de políticos que conhecia da televisão e que enchiam uma sala enorme e bem decorada do palácio cor-de-rosa que ficava logo em frente.

Ou como no dia em que o Largo do Rato acordou com várias setas brancas com o símbolo do PPD/PSD pintadas no chão, na campanha da primeira vitória de Cavaco.

Mas não foi só da janela. Também na rua deu de caras com a democracia. Uma vez recebeu um sorriso afável de um senhor de gravata e com óculos de massa que ia, talvez, a caminho de mais uma reunião política. E só mais tarde percebeu que se chamava Almeida Santos. Ou quando na tabacaria do largo onde comprava banda desenhada de super-heróis via entrar um senhor alto e louro, no cabelo e no bigode, que era o major Mário Tomé, de quem o pai do rapaz dizia muito bem.

Assim, sem querer e apenas quando vivia o dia-a-dia no seu largo, o do Rato, viu momentos especiais e figuras que hoje reencontra nos livros escolares dos filhos.

O Largo do Rato, para o rapaz que entretanto envelheceu, nunca foi um sítio de passagem, mas um local onde viu história acontecer.