O Bronze ao longo da idade

Por Paulo Leote e Brito

A primeira peça feita em bronze que me lembro de ver foi uma verruga. Era muito criança mas juro que é verdade. O meu avô materno que viveu para lá dos noventa anos tinha uma personalidade fascinante, variava entre o marialva tirânico e o homem culto e interessante que tinha na sua casa uma sala transformada em biblioteca e a quem devo algum do gosto que tenho por ler. Para além dessa sala tinha uma outra, uma espécie de altar dedicado ao culto da sua própria pessoa. Era ali que recebia os amigos, alguns escritores outros pintores que vinham de Lisboa para o visitarem e deliciarem-se com os produtos exclusivos da sua fazenda algarvia. Na sala, que até tinha uma porta de entrada exclusiva, mais ou menos a meio ficava, em cima de uma pedestal de madeira, a verruga e à volta da verruga o rosto do meu avô.

Parece, pelo menos o sucesso que tinha no mundo das mulheres demonstrava-o, que o meu avô era um homem bonito, ou deslumbrante que vai dar mais ou menos no mesmo, mas aquela verruga já tinha merecido alguns comentários depreciativos entre as mulheres da família “O pai podia tirar isso que lhe fica tão mal” ele resmungava uma resposta “nunca ninguém se queixou” e a verruga foi ficando até se imortalizar na escultura.

Durante uns anos morei ao pé de uma igreja que tinha uma torre sineira. Lá no topo os sinos de bronze, enormes, encantavam-me. Morava ao pé do mar e a vila tinha na pesca uma das suas principais atividades. Nesse tempo os homens do mar eram rijos e corajosos. Todos sabemos que a fome dá uma coragem que permite furar ondas. Também sabemos que as sereias habitam no mar mas de vez em quando aborrecem-se e são dadas a raivinhas ou a ciúmes, o que vai dar no mesmo e ficam-se de amores com alguns dos seus prediletos marinheiros. Ora, de cada vez que escolhiam um homem, a torre badalava o desgosto de toda a vila, na escola primária as batas brancas eram enfeitadas pelo fumo preto. Para me consolarem as mulheres da minha vida contavam-me histórias antigas que metiam sinos a rebate, mesmo antes de a torre sineira existir, relatando histórias de humanidade da boa. Ficava fascinado com as histórias e com os sinos que ficavam lá no alto, demasiado alto.

Um dia, há sempre um dia que aparece a oportunidade para se cumprirem sonhos, a porta de acesso à torre estava entreaberta, teria por volta dos meus sete, oito anos, porta aberta é sempre convite para entrar quando se tem a vontade e nesse dia nem o maternal “Deus está em todo o lado” que habitualmente me refreava os maus impulsos, me impediu de entrar.

Subi ao alto da torre sineira, dividido entre o medo das alturas não, tanto das alturas, mas da possibilidade de delas cair, e o orgulho do feito que por certo me iria promover ao estatuto de herói, quem sabe se com direito a estátua de bronze, mesmo que sem verruga a dar-me cabo do visual. O que eu não contava, era com o troar dos sinos em bronze que avisavam a hora de almoço. Entrei em desespero, pensei que aquilo ia tudo cair, eu incluído, e as pernas perderam toda e qualquer força, é que nem tinha força para para tremer, ou sequer pensar. Imagino que tenha berrado mais alto do que o sinos e quem me safou foi o sacristão, o senhor Zé que vivia em casa de uma tia, irmã do meu avô da verruga bronzeada e que tocava guitarra portuguesa, mas baixinho “Para a senhora não se incomodar”. Foi lá acima buscar-me e lavado em lágrimas de mãos nos ouvidos apanhei o primeiro grande susto da minha vida e um valente raspanete mas fiquei-lhe eternamente grato.

Achava eu, na inocência dos meus cinco anos que ganhar uma medalha de bronze era um feito patriótico. A culpa foi do Eusébio e restantes magriços que foram recebidos em ombros pelo povo português, saudoso de feitos heroicos que só o hóquei patins lhes oferecia de vez em quando e que o terceiro lugar do campeonato do mundo de futebol disputado em solo britânico era mesmo o melhor que tinha acontecido a Portugal desde os tempos dos descobrimentos.

Anos mais tarde cheguei a casa pleno de orgulho de medalha de bronze ao peito, medalha ganha depois de ter marcado menos golos que os dois primeiros goleadores, o meu pai que não ia muito em “futebóis”, nem muito muito nem pouco, não ia mesmo nada com a mania do filho querer ser futebolista. O que ele queria mesmo era que eu ganhasse medalhas de ouro nos estudos que era coisa que eu não percebia que interesse podia ter, rematou a conversa com um “Grande coisa?! Foste o segundo dos últimos”.