Nova vida de bairro

Em meados da década de 1980, as ruas, as esquinas e as avenidas de Portugal foram invadidas por snack bares. Os cafés, locais de reunião e discussão, foram desaparecendo. O seu carisma foi substituído por balcões de alumínio e cheiro a sopa que impregnava a roupa logo às primeiras horas da manhã.

Mesmo assim continuaram a ser locais de reunião onde se lia o jornal e se sabia as novidades do bairro. Na década de 1990, com o país a crescer e a riqueza mais distribuída, os snack bares foram dando lugar a bancos. Passaram a existir ruas com mais de cinco agências diferentes.

Era lá que as pessoas se encontravam e se cumprimentavam às primeiras horas do dia, entre pedidos de empréstimo ou apostas tímidas na bolsa. O tempo das vacas gordas, diriam alguns. Depois, nos anos seguintes, os hipermercados e centros comerciais foram-se instalando.

E nos últimos dias a conversa entre as pessoas do bairro é dominada pelo novo supermercado

E enquanto nasciam na periferia não influenciaram em demasia a vida das cidades, apenas esvaziando-as. Mas já nesta década, outro epifenómeno aconteceu: os supermercados e mercearias de bairro que aparecem (e continuam a aparecer) como cogumelos nas ruas dos bairros das cidades. E tornaram-se o ponto de encontro de maioria. Chegando mesmo a haver quem repita a visita várias vezes ao dia e em vários estabelecimentos diferentes.

Em Algés, por exemplo, a freguesia mais lisboeta de Oeiras – a Campo de Ourique dos remediados –, há, no espaço de cinco pequenos quarteirões: quatro supermercados e seis mercearias. E nos últimos dias a conversa entre as pessoas do bairro é dominada pelo novo supermercado, o quarto, que vai abrir em breve numa das ruas principais. Há quem
ande impaciente, há quem passe à porta do espaço várias vezes ao dia para ver a evolução das obras. Vi mesmo alguém entreabrir a porta de vidro e perguntar pelo dia da inauguração.

Agora que, por ali, os bancos praticamente desapareceram e os snack bars são apenas no número suficiente, o novo ponto de reunião são os supermercados. Estranha, esta nova vida de bairro, não?