Na grande sala de Belgais

No fim da estrada, acontece Belgais. Acede-se àquele santuário por uma alameda de árvores que o inverno despiu. O dia despede-se numa paleta de azul com laranja-desmaiado, já com a Lua quase cheia no céu. Estacionamos e pisamos a terra vermelha, lamacenta. Em frente, um charco em forma de coração faz brilhar as nuvens.

Ali não se fala, murmura-se. Como se cada um que chega a Belgais entrasse numa espécie de recolhimento que não planeou. Anda-se devagar, olha-se aquele conjunto de casas bonitas, o vale, escuta-se os pássaros. É uma pintura que se respira. O primeiro pátio da casa abraça quem chega com paredes de pedra da mesma cor da lama. Alguém começara a acender tochas, várias, anunciando a noite. No segundo pátio, um lago rodeado de delicadas laranjeiras. De um lado, a sala, com a enorme lareira a respirar calor, grandes sofás a convidar ao estar.
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Maria João Pires chega, com os convidados dos concertos de Natal – a soprano síria Talar Dekrmanjian e o pianista sérvio Milos Popovic. Já há quem aplauda de pé, e ainda não se ouviu uma nota.

Na estante, centenas de discos. Ali bebe-se um copo de vinho ou uma caneca de chá antes do concerto, aconchega-se o estômago com sandes de queijo e presunto ou coscorões da Beira Baixa, no intervalo.

Do outro lado do pátio, a sala do piano. O público senta-se, envolvendo o piano e a banqueta, ainda vazia. Maria João Pires chega, com os convidados dos concertos de Natal – a soprano síria Talar Dekrmanjian e o pianista sérvio Milos Popovic. Já há quem aplauda de pé, e ainda não se ouviu uma nota.

Segue-se a viagem aos céus, com canções arménias, seguidas de Schubert, a duas ou a quatro mãos, tudo coroado com um arrepiante Ave Maria. Os aplausos, de toda a plateia (naquele dia não completa) de pé, chamaram o trio de volta. Talar cantou à capela uma canção que Maria João disse ser dedicada aos sem-abrigo.

Depois, a doce pianista atravessou o pátio e sentou-se na sala. Queria saber de onde vinham os que a escutaram, os seus nomes. Deixa-se fotografar, autografa um disco e vários programas. A sala esvazia-se e volta a ser só sua. Até maio, enche-a duas vezes por mês.