Música como nos filmes

Tenho uma relação estranha com a música clássica. De tempos a tempos, tenho urgência em ouvir. Seja a conduzir, a escrever ou a ler ou até mesmo nas raras vezes em que cozinho. Serve como uma espécie de “limpador” da música mais plástica que passamos o tempo o ouvir, quer na rádio ou nas listas que o algoritmo do Spotify nos impinge – como se fosse um amigo de longa data. Curiosamente, fui autodidata no que toca a colocar Mozart, Bach, e outros, nos meus ouvidos. Em pequeno, eram os Abba e músicas pop francesas que se ouvia com frequência no gira-discos lá de casa. Clássica nunca.

Foi apenas através de bandas sonoras dos meus filmes preferidos – à cabeça John Williams e os filmes da saga Star Wars – que comecei a ter curiosidade por música clássica. Quando os CD ainda faziam sentido para além de serem boas bases para copos, mais de metade da minha coleção era de bandas sonoras de filmes. Os mais eruditos que me perdoem, mas vim parar à música clássica com a estranheza envolvente das composições do polaco Wojciech Kilar no Drácula de Francis Ford Coppola (1992), dos sons menos convencionais e hipnóticos da compositora britânica Jocelyn Pook no último filme de Kubrik, Eyes Wide Shut (1999) ou ainda Hans Zimmer no fabuloso Hannibal (2001) de Ridley Scott.

Ao longo dos anos pré-streaming colecionei todos os CD oferecidos por jornais e revistas nos anos 1990. Depois aventurei-me nos concertos em vários locais de Lisboa. E recordo o pânico que cada pausa me causava, sempre com medo de que alguém ainda menos conhecedor do que eu aplaudisse os músicos antes de tempo. Era um desassossego.

Hoje a música clássica vem mais vezes ao ouvido. Pergunto-me se é de estar a ficar mais velho ou mais rigoroso com a qualidade do que ando a ouvir. E faço o exercício contrário, imagino cenas de filmes que iam bem com determinadas sinfonias ou sonatas. Como a Sinfonia n.º 6 de Beethoven, que pode muito bem ser a banda sonora para acompanhar a leitura deste texto.