Muros do liceu

No liceu havia dois tipos de muros. Uma parede encarnada de tijolo burro. E outro, um muro de facto, alto de um amarelo triste. Muito diferentes mas muito fascinantes. Encostado à parede encarnada, que gerações teimavam chamá-la de muro, estavam os rebeldes da escola. Passavam lá horas a fio. Aliás, pareciam que de lá nunca saíam.

Os mesmos que ali mesmo davam as primeiras passas no SG ou no Português Suave para se tornarem fumadores frequentes. Para nós, os outros, personificavam tudo o que os pais em casa diziam para não fazer. Olhava para eles com um misto de admiração e repúdio. Tocavam em bandas de rock e punk, ouviam músicas depressivas e vestiam calças rasgadas nos joelhos e andavam, dia sim, dia sim de preto.

Apenas quando acontecia um fenómeno estranho: um fumo branco com cheiro intenso invadia a escola. E incomodava-nos muito. Ia connosco para casa nas nossas roupas. Era o cheiro de corpos e ossos cremados.

Não eram muito diferentes de nós, os outros. Mas a atitude estava nos antípodas. Havia ali um muro que nos separava. Lembro-me de que nos primeiros anos do liceu tinha medo de passar perto deles. Anos mais tarde, consegui vencer o medo de tal maneira que arranjei uma namorada por lá. Mais velha, que fumava e tinha calças rasgadas. Foi a minha maneira de passar o muro. Além de arranjar namorada, rasguei umas calças, claro. Como os meus pais não ficaram chocados, repeti noutras e em mais outras. Tinha ido ao muro e regressado, o que me fazia sentir uma espécie de James Dean com roupa da Benetton. E essa mistura valeu-me mais uns quantos namoros agora do lado dos betinhos.

O outro muro, o tal amarelo triste, era diferente. Dava para o Cemitério dos Ingleses. Convivíamos com aquilo de uma forma estranha. Nós, pujantes de vida, tínhamos ali um muro a separar-nos da morte. Raramente falávamos no assunto. Apenas quando acontecia um fenómeno estranho: um fumo branco com cheiro intenso invadia a escola. E incomodava-nos muito. Ia connosco para casa nas nossas roupas. Era o cheiro de corpos e ossos cremados. O cheiro do fim. Quando acontecia, recordávamos, mesmo sem querer, que há muros que só devem ser ultrapassados o mais tarde possível.