Leonardo também é fake

Não sabia exatamente por onde pegar neste Mural, agora temático. Fiz umas
pesquisas sobre o génio renascentista e depois fixei-me em A Última Ceia. Pesquisei sobre a relação entre Da Vinci e a gastronomia, e deparei-me com o livro Apontamentos de Cozinha de Leonardo da Vinci: o Caderno de Apontamentos de Leonardo da Vinci sobre Gastronomia e o Estar à Mesa, de Shelag e Jonathan Routh.

Editora Atena, primeira edição em 1997, traduzido por Ana Duarte. No dia 1 de abril sentei-me na Biblioteca Nacional a consultar o livro. A primeira impressão foi de incredulidade: Da Vinci inventara o esmagador de alhos. E o guardanapo.

E o spaghetti. Até a nouvelle cuisine. Mas ia lendo os textos decalcados do Codex Romanoff de que nunca ouvira falar, alegadamente descoberto em 1980 na Rússia, profusamente ilustrado com desenhos a sépia. A dado momento lembro-me de ter pensado: “Isto podia ser uma partida do dia das mentiras.” Disparate. “Estás na Biblioteca Nacional a ler um livro editado em Portugal em 1997, não podes saber tudo sobre tudo.”

O texto foi escrito. E eram 2026 caracteres de pura mentira. Intitulei-o assim, “O Leonardo, a esmagar alhos desde o século XV”. E voltei a esgravatar
a internet à procura de sites italianos com referências a Il Leonardo, que segundo o livro era o nome por que até hoje, era conhecido o esmagador de alhos. Nada, zero.

E nova investida digital, que desta feita devolve uma notícia sobre a falsidade do Codex Romanoff, que nunca existiu nem está no Hermitage, e foi inventado por dois comediantes britânicos (Jonathan Routh fazia o programa Candid Camera). E foi pela primeira vez publicado em Londres, no 1 de abril de 1987.

O livro não só vendeu milhares de exemplares como, em Portugal, voltou a ser editado em 2013, desta vez pela Althum, já depois de os editores espanhóis terem assumido que o livro era “uma brincadeira”. Na altura, a editora portuguesa chegou a juntar alguns chefs na Casa do Alentejo a reproduzir alegadas receitas do chef Da Vinci. Será que uma mentira repetida se torna mesmo verdade?