Há o correr e o ser corrido

Queres vir dar uma corridinha para abrirmos o apetite?”, sardinhas dispensam aperitivos, mas era o olímpico Carlos Lopes que desafiava. Na pista das Açoteias treinavam os gémeos Castro, que ainda competiam, o Lopes já só corria por prazer, a barriguinha tinha crescido e preparava-se para nada mais do que comer umas sardinhas e beber um verde fresquinho.

A tentação de dividir a pista com estes craques era grande, treinava habitualmente, por isso não corria grandes riscos de ter um ataquinho qualquer. Aguentei heroicamente duas voltas, o ritmo do “maior”, mesmo retirado há anos, é que era de outro mundo, em surdina os irmãos Castro comentavam: “Este gajo não é normal.” Para mim ficou o contentamento de ter ultrapassado as apostas iniciais que apontavam para que aguentasse menos de meia pista e já com uma volta de atraso. O pior foi ter de levar o almoço e dividir as sardinhas com as piadinhas do Lopes, um ser humano fantástico, mas possuidor de um humor corrosivo.

Passando por umas corridas que o Diário de Notícias organizava, cujos dorsais ainda guardo junto a um bilhete de metro, ainda virgem, oferecido a meio do percurso por uma amiga menos confiante.

Sempre tive uma necessidade imperativa de correr desde tenra idade e o prazer de o fazer só terminou quando o chato do médico de família sentenciou “deixe-se de corridas e de futeboladas, faça natação e marcha, isto se quiser envelhecer sem bengala”. Corri muito, desde as pré-temporadas nas areias do Guincho até às voltinhas de castigo no Estádio da Luz que o mister Ângelo, desconfiado, teimava que desse até cair esgotado no chão para então dar o único veredicto que lhe interessava: “Andas na noite, é o que é!”, passando por umas corridas que o Diário de Notícias organizava, cujos dorsais ainda guardo junto a um bilhete de metro, ainda virgem, oferecido a meio do percurso por uma amiga menos confiante.

Há correr e ser corrido e fui corrido de vários sítios, por exemplo da escola primária, no tempo do “meninos para um lado, meninas para o outro”, mas nada comparável à corrida que levei no liceu de Queluz, que devia constar no Guinness. Por uma “injustiça” qualquer fui corrido da sala de aula de História, que ficava num segundo andar, inconformado com a decisão, regressei à sala de aulas entrando pela janela, sim, era no segundo andar e, sim, o parkour já era praticado nos anos 70. A professora era velhinha e já apresentava sinais de senilidade, uns minutos depois voltou a correr comigo por outra “injustiça” e no livro de ponto lá ficaram duas faltas a vermelho na mesma aula, algo que intrigou o diretor da escola e a própria professora, que não se lembrava porque razão tal tinha acontecido.