Há copas e copas

Nunca fui de mexer nas gavetas das mulheres lá de casa, tão-pouco liguei a sutiãs até ter necessidade de aprender a soltá-los com os dedos, tarefa em que ainda hoje tenho alguma dificuldade. Já não era garoto quando ouvi pela primeira vez: “Tamanho não sei quantos, copa B.”

Espantei-me, copas só conhecia as do naipe do jogo do king ou das suecadas, o jogo de cartas. diga-se, para evitar juízos apressados. Até porque as suecas que conheci nos verões em Albufeira não eram muito de sutiãs, e conhecia-as no cumprimento do ritual que consistia em estagiar os primeiros 15 dias no bar de um primo, tirando imperiais, o que me permitia gozar o resto da férias de forma desafogada e que era bem melhor do que ir para outra copa, a da cozinha, onde se lavavam copos e não se conheciam suecas.

Nem no tempo em que o futebol reunia toda a minha atenção, entre os treinos e as coleções de cromos com que depois fazíamos campeonatos imaginários, nem eu nem o meu grupo de amigos dávamos importância ao que se passava do lado de lá do Atlântico, exceto nos campeonatos mundiais em que torcíamos pelo Brasil, no tempo em que o futebol português se ficava pelas fases iniciais.

Muito antes da globalização futebolística devem contar-se pelos dedos quantas pessoas na Europa é que sabiam ou se interessavam pela Copa dos Libertadores da América.

Só há mais ou menos 20 anos, numa época em que juntava o útil ao agradável, em viagens que fiz por alguns países sul-americanos, em que aproveitei para ver alguns jogos dos campeonatos sul-americanos, é que me apercebi da verdadeira dimensão desta competição que nasceu no mesmo ano em que eu nasci. Nunca assisti a nenhum jogo, mas as rivalidades entre, sobretudo, países esbarravam sempre no: “Neste ano temos de ganhar a Libertadores.”

Muito antes da globalização futebolística devem contar-se pelos dedos quantas pessoas na Europa é que sabiam ou se interessavam pela Copa dos Libertadores da América. Mesmo agora, fazendo uma sondagem aleatória entre o pessoal da mercearia onde me abasteço, a senhora da padaria e a freguesia da drogaria, onde vou comprar pouco do que preciso e muito do que não preciso, apurei que ninguém sabia quem eram os Libertadores da América nem a Copa e só consegui obter alguma reação quando, em desespero, juntei as palavras taça, futebol e Jorge Jesus. Reação que se resumiu a alguns comentários sobre a sua carreira recheada de tiradas anedóticas e a demonstração de orgulho por um treinador que tem mais quases do que troféus mas que sabe render os quases como ninguém, ser elevado a estatuto de herói maior, ainda mais dos que os próprios Libertadores da América.