Fim, meio e princípio 

Nunca mais vou esquecer aquele dia. No táxi, a caminho do aeroporto de Amesterdão, com o céu cinza-escuro e a chuva que os holandeses ignoram a acompanhar a viagem. Se me concentrar ainda tenho memórias do perfume que estava no automóvel. Pedi ao taxista, no meu holandês esforçado, para dar uma volta pela cidade e passar por alguns locais antes de chegarmos ao assético terminal de Schiphol que me levaria de regresso a Lisboa.

Aquela viagem foi a minha despedida de dois anos muito intensos (e bons) na capital da Holanda. Sentia que iria voltar em breve, o que aconteceu, mas nunca mais seria a mesma coisa, nunca mais chamaria de minha aquela cidade. Horas antes tinha-me despedido da companheira da altura, apesar de tanto um como outro sabermos que era um relacionamento a prazo, e se calhar por isso ter corrido tão bem, as despedidas custam sempre. Talvez o céu só por si dramático tenha ajudado no enredo. Faltou apenas uma banda sonora a preceito para lá dos bips dos semáforos e das buzinas das bicicletas. Era agosto, dia 13 de 2004.

Nesse dia voltei a ter uma sensação de perda que já tinha tido anos antes, sempre em agosto, quando o ano escolar acabava e com ele algumas amizades que se separavam até setembro, mês em que já todos éramos diferentes. Tal qual como na série espanhola Verão Azul. Mas agosto não é só tristeza e separação, é o mês mais diferente do ano, mesmo para quem faz tudo igual. É uma espécie de marco, como se fosse metade do ano, que não é.

É sobretudo um mês de fim, meio e início. Sim por esta ordem. É o mês para terminar com certos hábitos (outra vez a despedida), para refletir, descansar e fazer planos para o futuro. É mesmo um mês diferente e importante para que o resto do ano nos corra a gosto.