Opinião de Fernando Melo: estamos na mira da Michelin

Chefs que receberam uma estrela Michelin para os seus restaurantes na gala do Guia Michelin 2020.

A revelação das estrelas Michelin que passam a ornar a entrada dos restaurantes portugueses deixou a maioria da comunidade gourmet no silêncio sepulcral a que infelizmente já se habituou. No entanto, trata-se de uma evolução lógica e sustentada dos resultados dos últimos anos. Um texto de Fernando Melo*.

Três restaurantes perdem a estrela que tinham, um outro fecha portas, mas temos mais um com duas estrelas Michelin e quatro novos estrelados no guia Portugal e Espanha lançado em Sevilha no passado dia 20 de Novembro.

“Willie’s” em Vilamoura, “L’AndVineyards” em Montemor-o-Novo e Henrique Leis em Almancil, são os três despromovidos da edição de 2020 do mais prestigiado guia de hotéis e restaurantes do mundo. Não nos colhe de surpresa esta queda, na base dos dois algarvios está uma certa insistência num modelo datado e que deixou de estar em sintonia com os públicos amantes da novidade e da vanguarda, enquanto no alentejano houve a vontade de deixar partir a estrela depois da saída de Miguel Laffan, sem proposta concreta e capaz de novo chef e nova brigada.

Contundente mas anunciada foi a retirada do “São Gabriel”, em Almancil, da cobiçada lista das estrelas, resultado da venda do restaurante a um grupo que o está a converter numa casa de cozinha de inspiração asiática, longe dos pergaminhos de alta cozinha que lhe vimos ao longo de quase três décadas de história. O nosso prognóstico bateu certo na atribuição de mais uma estrela ao maravilhoso restaurante de Rui Paula em Matosinhos, a “Casa de Chá da Boa Nova”.

Emocionado como uma criança, com a voz entorpecida e as lágrimas a correr rosto abaixo, disse as palavras mais simples que se pode dizer numa situação daquelas, que era um privilégio muito grande estar todos os dias junto ao mar, ao peixe ao marisco que tanto ama, apoiado numa equipa fantástica.
Cumpriu-se também a outorga da primeira estrela a quatro outros restaurantes. O “FiftySeconds”, de Martin Berasategui, instalado na Torre Vasco da Gama, foi um dos contemplados. Rui Silvestre, no “Vistas – Monte Rei Golf and Country Club”, em Vila Nova de Cacela – também viu confirmada a estrela, o que é uma notícia excecional, por denunciar a proximidade com que o guia Michelin perscruta o reticulado do território luso.

O mesmo há que dizer sobre o ainda jovem chef Diogo Rocha, do “Mesa de Lemos”, em Viseu. O nível muito elevado de trabalho executado com precisão de alta relojoaria não passou despercebido aos olhos dos
inspetores Michelin e o restaurante passa a integrar a plêiade nacional. O superdotado chef “Vincent Farges confessava no final da cerimónia que a estrela que ganhou para o seu “Epur” tinha o sabor especial de ter sido ganha por si e pelos bravos da sua equipa, diretamente pelo trabalho feito, a sua experiência anterior envolvia, na “Fortaleza do Guincho” situações em que tinha herdado as estrelas, sentindo-as mais da casa do que propriamente suas.

Portugal está bem posicionado para crescer, agora que os
inspetores do guia vermelho Michelin parecem ter um conhecimento de regiões e chefs que chega ao grão mais fino da geografia nacional. Acreditávamos que seria este ano o surgimento do primeiro restaurante três estrelas do país, mas o sonho foi adiado pelo menos para o ano que vem. Do lado dos empresários e chefs portugueses, parece estar também encontrado um caminho irreversível no sentido do crescimento, o código está encontrado e sabem já o que fazer para caminhar para as estrelas.
O sentimento geralmente negativo que se instalou logo após o anúncio dos nossos eleitos não tem qualquer fundamento, estamos melhor que nunca, e com perspetivas de crescimento. Mesmo não sendo um objetivo primordial, sabe bem-estar na mira da Michelin.

 

*Fernando Melo é crítico de vinhos e comida na revista Evasões. Engenheiro físico do IST, dedica-se há 30 anos ao estudo das raízes e dos patrimónios gastronómicos do país, percorrendo ao pormenor o território, as suas mesas, vinhas e adegas. Dá formação em enogastronomia nas escolhas de hotelaria nacionais.