Sem reservas

 

Há um episódio da série «No Reservations» do malogrado Anthony Bourdain que revejo muitas vezes. Transmitido pela primeira vez em 2012 é passado em Emiglia Romana, uma das regiões de Itália mais características daquilo que, no geral, entendemos como italiano.

Juntamente como outro chef norte-americano, Michael White, (radicado há anos naquele zona), deambulam por vários pontos de interesse gastronómico da região.

Conduzem um Ferrari, encarnado, claro está, pelas curvas sinuosas da região. O desejo de estarmos sentados ao lado de Bourdain é quase «pavloviano». Às tantas vista um local cheio de história (deliciosa): Antica Corte Pallavicina.

E, claro, Bourdain fica com um Culatello a curar em seu nome – quem tiver curiosidade e paciência pode procurar na Internet alguns tweets de Bourdain sobre a iguaria.

Local onde fazem os Culatello – uma carne fumada da região – que aqui é curado no mínimo dois anos numa cave, que recebe a humidade e o vento do rio Pó. O processo de cura é exatamente igual desde há 700 anos e esta é uma iguaria reservada a uma elite – de príncipes e políticos de renome. E, claro, Bourdain fica com um Culatello a curar em seu nome – quem tiver curiosidade e paciência pode procurar na Internet alguns tweets de Bourdain sobre a iguaria.

Revi este episódio no mesmo dia em que escrevi esta crónica. Dia esse que ficou marcado pela vitória da seleção de futebol portuguesa de sub-19 na final do Campeonato da Europa frente à…Itália.

Nos minutos do jogo, embora vistos com emoção, deambulei sobre a ideia que temos de Itália, em vários ângulos. Da gastronomia à moda, dos automóveis ao mundo dos vinhos. Até ao sobejamente reconhecido estilo de vida.

Em Portugal, certamente que temos os nossos Culatellos – mesmo que em áreas distintas. E temos muitos produtos premium.

E, inevitavelmente comparei com Portugal. Há anos que defendo que temos um país gourmet – com produtos de grande qualidade, originais e pouco massificados. Mas continuo sem entender porque razão ainda não somos reconhecidos como os italianos. Porque temos de esperar que estrangeiros venham «espevitar» a nossa vontade e criatividade (ver tema de capa da DN Ócio nº2) para ganharmos confiança e mostrar a qualidade.

Em Portugal, certamente que temos os nossos Culatellos – mesmo que em áreas distintas. E temos muitos produtos premium – se calhar mais do que qualquer outro país europeu. A divulgação de projetos e histórias portuguesas ajudam a criar a tal ideia de país gourmet. O tempo de o fazer é agora, sem reservas, à velocidade de um Ferrari.