Difícil é separar-nos da infância dos filhos

Não consta, nos anais da família, que tivesse qualquer problema em separar-me da chupeta, da fralda ou de um brinquedo favorito. Recordo com mágoa o desaparecimento da minha coleção de bonecos da guerra civil norte-americana, fruto de um castigo imposto pelo meu pai.

Difícil foi separar-me da infância dos meus filhos. Como saber qual o momento em que isso acontece?! Um dia percebemos que já não andam às nossas cavalitas nem nos dão a mão para atravessar a rua, depois percebemos que aos domingos de manhã já não correm para o quentinho da cama dos pais e que acham uma seca ficar a ver filmes aninhados nos nossos braços ou que preferem correr para a rua para estar com os amigos em vez de alinharem nos piqueniques da família. Logo a seguir abalam porta fora e arranjam uma vida onde a nossa presença, por vezes, cheira a obrigação.

Separei-me duas vezes. Duas relações que terminei depois de muito insistir em as manter. Numa das separações, deixei de a procurar e ela não deu pela minha falta. Simplesmente desisti de me intrometer entra ela e o seu reflexo narcísico, que tornava a relação num trio pouco desejável. Tivemos uns meses sem nos falarmos e no único dia em que trocámos algumas palavras estive quase uma hora a ouvi-la falar de redes sociais e afins, um discurso que ouvi atento, a ver se percebia o que é que ainda havia ali, quando percebi que era tudo vazio de conteúdo e fútil, desliguei o telefone. Até hoje.

Complicado é separar-me dos livros, dos jornais, das revistas, dos discos de vinil. De cada vez que preciso de espaço é uma luta inglória e mais difícil se torna quando tudo isto se encontra mais ou menos disponível na internet e os filhos não serão fiéis depositários deste legado, por muito que insista.

Os meus avós paternos separaram-se pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Ambos católicos, parece que não foi uma separação desejada, personalidades muito fortes que arrastaram uma silenciosa intransigência até à derradeira decisão. A visão romântica que tenho deles é sustentada pelo facto de quando o meu avô morreu o cortejo funerário ter passado por casa da minha avó que ficava no lado oposto da cidade, para que ela pudesse despedir-se do amor da sua vida.