Desejo de maioridade

Todos os dias que passava pelo salão de jogos o miúdo fazia contas para calcular o tempo que faltava para poder lá entrar. “Só para maiores de 16 anos”, dizia um papel na porta. E todos os dias, a caminho da escola, passava por lá e lia-o, quase em voz alta.

Não havia maior desejo como o de ter idade suficiente para poder entrar naquele espaço e meter uma moeda de 25 escudos nas máquinas eletrónicas ou imitar, na mesa de snooker, as jogadas de Tom Cruise e Paul Newman que tinha visto no filme A Cor do Dinheiro.

Esse desejo suplantava outros como o da conquista da miúda mais gira da turma ou outros mais mesquinhos como ter as sapatilhas brancas que todos os seus colegas usavam. Para ele, poder entrar naquele templo de (quase) maioridade era o maior desejo desde que entrara no liceu.

Via os amigos mais velhos faltarem às aulas e convidarem as raparigas para jogar snooker com eles no salão. Por vezes, irritado por estar a perder algo (os anglo-saxónicos chamam-lhe agora fear of missing out) vencia o medo e entrava no salão de jogos. Quase em bicos dos pés para se sentir maior. Tentava franzir a testa para parecer mais velho e ganhava a confiança que lhe faltava nos dias em que não rapava a penugem escura que teimava em aparecer acima do lábios.

O rapaz sonhava com aquilo todos os dias. Até que fez 16 anos e realizou o seu desejo. Era para ele, recorda-se, mais importante do que os 18 da maioridade oficial.

Às vezes conseguia estar por lá uns cinco minutos. Outras nem tanto. O experiente empregado que facilitava o troco sabia à distância que não tinha idade para ali estar. Pedia o BI para logo de seguida convidar a sair.

O rapaz sonhava com aquilo todos os dias. Até que fez 16 anos e realizou o seu desejo. Era para ele, recorda-se, mais importante do que os 18 da maioridade oficial. Passou o dia de aniversário a meter moedas nas máquinas eletrónicas, convidou amigos mais velhos para as partidas de snooker e sentiu-se adulto nesse dia.

Ao regressar a casa e depois de ter realizado o sonho de quase três anos, desencantou-se e percebeu que afinal o local não era assim tão especial. E a vontade de lá entrar foi desaparecendo. Passaram-se semanas até lá voltar. Já sem a emoção de outras alturas nem o perigo de ser expulso, o desejo desapareceu e ir ao salão de jogos tornou-se algo banal.

Nesse dia percebeu uma coisa que ainda hoje o faz sorrir: não há nada melhor que o desejo proibido.