Contrabandista de caramelos e crianças

Não recordo a primeira vez que fui a Espanha, mas vem-me à memória as vezes que fiz contrabando, sempre caramelos e chocolates mais a adrenalina que sentia a cada paragem na fronteira: “Algo a declarar?” educado a não mentir, atirava com uma meia verdade: “Só o que está à vista”.

Noutra ocasião fui com os meus três filhos, mais a mãe deles, festejar o aniversário do mais novo à Isla Mágica, em Sevilha. No dia seguinte em vez de regressarmos a Portugal rumamos até Gibraltar, ia lá com frequência e as histórias que lhes contava do Rochedo tinha-lhes aguçado a curiosidade. Esquecemos dois pormenores importantes, que Gibraltar tinha fronteira ativa e que os cartões de cidadão dos miúdos ficaram em Portugal. Na primeira tentativa para entrar fomos barrados. Esperamos pela mudança de turno e mudamos a estratégia, mostrando a única identificação que tínhamos disponível, os cartões de acesso à piscina municipal de Albufeira, voltamos obviamente a ser barrados.

O problema seguinte era o regresso, fomos até a uma esquadra e demos a desculpa do roubo da mochila onde estavam as identificações e que precisávamos de um comprovativo para evitar problemas no regresso a Espanha

Nessa noite traçamos um plano para o assalto ao Rochedo. Na manhã seguinte ainda na garagem do hotel, enfiamos os três na espaçosa bagageira do carro que tinha acesso pelos bancos de trás, entramos na fila e já perto da nossa vez de passar o controle ouvimos um enorme rebuliço na bagageira, um deles tinha largado uma bufa e entre protestos e gargalhadas lá se acalmaram e passamos a fronteira tranquilamente. A fila continuava depois do posto fronteiriço, pois Gibraltar tem um aeroporto que se cruza com a estrada e que era uma das coisas que lhes queria mostrar. A fila provocada pela cancela fechada era sinal que ia aterrar um avião. Era uma oportunidade única, só que estávamos relativamente perto do posto e receosos que alguém visse os miúdos a saírem da bagageira. Abri a porta de trás e baixei o banco para que saíssem perante o olhar cúmplice dos ocupantes do carro ao lado, lá fomos ver o avião aterrar.

O problema seguinte era o regresso, fomos até a uma esquadra e demos a desculpa do roubo da mochila onde estavam as identificações e que precisávamos de um comprovativo para evitar problemas no regresso a Espanha. Enquanto esperava pela papelada meti conversa com um dos policias e perguntei se era frequente estes roubos, perante a resposta: “Não, que me lembre, esta é a primeira participação deste género” , fiquei caladinho até obter o papel que legitimava a nossa presença em solo de sua majestade.