As vacas, o ambiente e conversas malcheirosas

A conversa fluía, rodeado por alentejanos, à sombra de um sobreiro, falando sobre tudo e sobre nada (futebol, anedotas, mulheres e sobre questões práticas da vida do campo), até que começámos a falar das diferenças entre viver no campo e na cidade, quando um deles, naquele jeito doce que o alentejano tem de provocar, diz: “Vocês têm lá uma poluição que aquilo mete impressão.” Para não me ficar, e porque eram quase todos criadores de vacas e ovelhas, disse-lhe que os gases das vacas e das ovelhas eram um dos maiores poluentes do planeta, mais até do que os automóveis, convencido de que o tinha deixado calado. Mas a resposta não tardou: “Hum, já tinha ouvido que o Alentejo cheira a muita coisa, mas que cheira a peidos é a primeira vez. Vamos mas é beber e comer alguma coisa que a conversa está a ficar malcheirosa.”

A primeira vez que fui confrontado com a questão do ambiente foi a “chatinha” da Lena Águas, a primeira vegetariana que conheci. Um dia, ao ver-me à volta das pilhas do motor da Canon F1, questionou-me de sobrolho franzido: “O que é que fazes com as pilhas gastas?”, sem desconfiar do que aí vinha, respondi: “Deito-as fora.” Já não me lembro da data desta conversa, mas foi muito antes de aparecerem os ecopontos às cores, mas lembro-me bem da fúria que desabou sobre a minha ignorância. “Que queres que faça?”, ainda retorqui, piorando ainda mais o ambiente da discussão. A resposta foi rápida e a subir de tom: “Engole-as! Deitá-las no lixo é que não, porque as pilhas envenenam o planeta.”

Mais calma, contou-me que uns anos antes tinha ido levar o pintor Chico Maya ao aeroporto e que este, como quem pergunta onde fica o WC, a questionou se sabia onde estavam os pilhómetros, pois tinha umas pilhas para deitar fora. Claro que nessa época em Portugal ninguém sabia que as pilhas poluíam o ambiente, quanto mais existirem pilhómetros como na Suécia, onde vivia o pintor.

Nunca mais esqueci a conversa e durante anos acumulei quilos de pilhas até encontrar onde as deitar fora em segurança, o que demorou alguns anos. Há dias, falámos por telefone, conversámos sobre o seu excelente novo trabalho, sobre a família, entre outras coisas, e às tantas disse-lhe que ainda hoje, sempre que tenho de mudar pilhas, me lembro dela, acrescentando que agora só as uso para o afinador da guitarra, arrependi-me mal o disse e esperei um “e que tal usares o ouvido para a afinar?!”, mas não, desta vez safei-me.