As eleições do futuro

Era um dia de semana, mas não como os outros. A chuva miudinha fingia que molhava quem se deslocava a pé ou de bicicleta. Na rua, saltavam à vista as bandeiras dos diferentes partidos que alguns prédios de tijolo encarnado ostentavam. Alguns, com bandeiras diferentes por piso, ao gosto político de quem lá vivia.

O trânsito na cidade fluía, os milhares de bicicletas entrelaçavam-se sem se tocar, num caos organizado apenas interrompido quando um ou outro condutor parava junto aos cartazes políticos espalhados por diferentes pontos da cidade.

Colados lado a lado num painel de metal com pouco mais de dois metros de largura e altura, cada cartaz, ou minicartaz, num tamanho pouco maior do que o A4, debatia-se pela atenção dos ainda indecisos que nesse dia, pelo menos até às 19 horas, podiam votar em toda a Holanda. Era dia de eleições municipais, dia de semana, dia em que as empresas davam tolerância para se chegar mais tarde ou sair mais cedo para fazer o ato cívico.

Como habitante da cidade há já um par de meses, e cidadão da União Europeia, pude fazer a minha escolha.

Depois de ter passado semanas a chatear os vários partidos políticos para me enviaram o seu programa em inglês, o que alguns fizeram, e de ter visto nos vários canais debates entre os vários candidatos que de pé, e sempre de pé, discutiam e gesticulavam (alguns a fazer lembrar discussões latinas) em frente às câmaras de TV. Mesmo não dominando a língua, consegui perceber que os assuntos andavam em redor dos direitos dos animais, da economia e da vivência entre muçulmanos e os europeus ocidentais. Depois disso, fiz a minha escolha.

Nesse dia, logo de manhã, antes de entrar no emprego, prendi a minha bicicleta azul com uma corrente à volta de um poste cheio de ferrugem e juntei-me à pequena fila para votar. Depois, pela primeira vez em frente a uma máquina retirei as luvas e premi o botão para fazer a minha escolha. Simples, rápido. Civilizado. Pela metodologia, pela forma da campanha, pela inclusão, por tudo isso senti, honestamente, que um dia todas as campanhas seriam assim. 13 anos depois continuo à espera de que chegue ao nosso país. Serei o único farto da poluição visual dos cartazes políticos e de colocar o meu voto num caixote preto?