A travessa coçada

Trouxe de casa dos meus avós uma travessa coçada. Branca, com os três frisos verdes aqui e ali interrompidos por sucessivos usos. A travessa de todos os dias sobrava, numa casa por onde já toda a gente tinha passado a reclamar como seu os restos daquelas vidas longas. A mim, para além disso, coube-me o derradeiro momento, em que abri gavetas e armários à procura dos restos dos restos, antes de entregar as chaves à senhoria.

Curiosa ironia. A travessa de porcelana – linha industrial (digo eu) da cerâmica Coimbra (diz o carimbo, também coçado) – enchia-se de cheiros e cores praticamente todos os dias. Não se passara assim tanto tempo: num dia servia-nos o alimento, no outro estava às portas do lixo.

A minha avó empoleirava-se no pequeno fogão em cima da chaminé e dispunha a ementa do dia na travessa branca. Lembro-me do bife com batatas fritas e ovo estrelado – eu era adolescente e ter um bitoque a desfilar numa travessa dava-lhe outra dignidade. Mas também por lá passou peixe cozido com legumes, carne assada com batatinhas, cozido à portuguesa. E pastéis de bacalhau! Ah, os pastéis de bacalhau… (ela dava-lhes forma com duas colheres de sopa, punha-os aos saltinhos no óleo e quando saíam eu roubava um par deles, mornos e estaladiços).

A travessa sobrante vinha com cicatrizes. Falta verde às listas que a debruam e tem no fundo vestígios de sulcos. Peça de arqueologia gastronómica, foi comprada na Vicrilana, na Rua da Palma, em Lisboa (não sou assim tão antiga, há um segundo carimbo verde na base), loja que também já não existe.

É uma das memórias vivas dos almoços diários em casa dos meus avós – mais do que as fotografias. Volta à mesa com bacalhau ou peixe cozido. Ou modernices, como atum braseado – eles iam gostar.