A rotina que se torna saudade

Foi ontem que nós, adultos, fomos adolescentes. Nessa altura tudo o que tinha que ver com as rotinas dos nossos pais era chato. Muito chato.

Jantar às 20h00 em ponto. Porquê? Ouvir o relato de futebol pelo rádio portátil, quando se podia ir para um café ver o jogo? Fazer a cama todo o santo dia, quando à noite nos voltamos a deitar?

Ouvir sempre as mesmas músicas dos Beatles e dos Abba nas viagens de carro? Ir ao mesmo café de sempre quando novos espaços abriam no bairro? Ou ainda ir para o estádio de futebol mais de uma hora antes do apito inicial do árbitro? Para quê? Porquê?

Na lógica de adolescente nada disto faz/fazia sentido. As rotinas dos pais era algo tremendamente chato.Mas depois crescemos.

Fazemo-lo quase sem notar. O embalar um filho exatamente da mesma forma como nos faziam. Escolhermos sempre o mesmo café ou restaurante.

Tornámo-nos nós os adultos e acontecem duas coisas: ficamos com muitas saudades daqueles tempos cheios de hábitos e rotinas (sobretudo se os pais já tiverem morrido) e começamos a ver a cara de aborrecimento dos novos adolescentes da família.

Porque, de repente, de ontem para hoje, somos nós os adultos a repetir algumas rotinas dos nossos pais. Fazemo-lo quase sem notar. O embalar um filho exatamente da mesma forma como nos faziam. Escolhermos sempre o mesmo café ou restaurante. O ralhar para baixarem o som da música ou, como também já me aconteceu, ir para o estádio de futebol muito antes de o jogo começar. Só o notei quando o pré-adolescente lá de casa me disse: “Tão cedo, porquê?”

A palavra rotina tem hoje uma carga negativa. Temos de ser dinâmicos, hipercriativos e ter uma vida superinstagramável. Contudo, a história e as rotinas são uma herança que transportamos connosco. Vêm dos nossos adultos para os nossos adolescentes. E um dia, quando desaparecermos, vamos continuar a viver nas rotinas deles. E isso é bom!